Felipe Castellari|Divulgação
Felipe Castellari|Divulgação

A escultora Erika Verzutti cria narrativas com suas obras no filme 'Moscow'

Artistas dirigem filmes e falam de suas motivações para criar ficções cinematográficas

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

03 de junho de 2016 | 06h00

"Moscow é um lugar que sugere uma narrativa”, diz a artista Erika Verzutti sobre o título de sua mais nova experiência criativa, a realização de um filme que tem as obras de sua exposição Cisne, Pepino, Dinossauro, encerrada recentemente em São Paulo, como cenário. “Digamos que cada escultura gerou uma pequena ficção em volta dela”, resume a escultora, que se viu no dia 22 de maio surpreendentemente rodeada por uma equipe de cinema – relativamente grande, formada por cerca de 40 profissionais –, no Pivô, espaço de arte no edifício Copan, para dirigir as cenas de sua peça cinematográfica, que conta com apenas uma atriz, Vera Zimmermann.

Pelo roteiro de Moscow, escrito por Erika Verzutti, com consultoria do artista Luiz Roque, uma mulher, “uma presença como uma musa”, contracena com o estranho Cisne Bambolê (2016), gigante escultura feita com madeira, ferro, isopor, papel, massa e fibra de vidro, que “foi parar na Rússia dos anos 40” – e, portanto, recebeu um belo efeito de nevada durante as filmagens. Já a monumental Cisne Passarela (2016), também muito branca, foi palco da encenação de um desfile de moda dos anos 1960, “meio italiano”. Mais ainda, a instalação apelidada de “cineminha”, desdobrada da pequena escultura de bronze Tarsila com Novo (2011), “virou uma coisa meio anos 80, meio The Hunger (Fome de Viver, 1983, do cineasta Tony Scott), com fumaça”.

“Não tive medo nenhum de fazer colagens do que o trabalho ia sugerindo”, conta a criadora, citando ainda como inspirações os filmes O Inferno (1964), de Henri-Georges Clouzot; 8 1/2 (1963), de Fellini; e até o clássico King Kong. “Uma coisa que apareceu em Moscow, que foi muito confortável, e que sempre aparece no meu trabalho de artes plásticas, foram as referências superficiais, explícitas, que digo que são como de almanaque”, afirma.

Aos 45 anos, Erika Verzutti, que participou, em 2015, do 34.º Panorama da Arte Brasileira do MAM, e estará este ano na 32.ª Bienal de São Paulo, vive o momento mais intenso de sua carreira artística. As esculturas de Cisne, Pepino, Dinossauro, embora já desmontadas e retiradas esta semana do Pivô, não só mostraram uma – elogiada – ousadia e experimentação da artista, como ganharam uma espécie de vida “etérea” com a realização de Moscow, filmado em preto e branco e em cores – e com figurinos e trilha sonora especiais.

“Há essa vontade de catapultar a exposição inteira no tempo”, diz a escultora. Para ela, é uma “libertação”, afinal, ter transformado, mais uma vez, a escultura em cenário – é bom lembrar que, recentemente, Erika Verzutti também realizou na Casa do Povo, em São Paulo, e no Sculpture Center, em Nova York, iniciativas nas quais outras transmutações de seu “cisne” foram palco de performances feitas por atores profissionais com textos dramatúrgicos criados por ela.

A princípio, nessas experiências anteriores, “era um certo ataque à própria escultura”, explica a artista. “O teatro, no nosso contexto, é um ruído, não é um embelezador, é algo que não se encaixa”, completa. “Foi um momento em que estava achando tudo um pouco homogêneo e pensei que queria fazer uma coisa muito improvável, algo às avessas mesmo, e eu nunca tinha feito um cisne grande, não tinha essa imagem na minha cabeça.”

Já no caso de Moscow, a motivação de Erika Verzutti de fazer um filme surgiu durante a montagem da exposição, sua primeira individual em uma instituição brasileira, como um novo passo em sua pesquisa artística. “Esse trabalho me faz lembrar a frase do (cineasta) Tarkovski, de que cinema é esculpir o tempo”, comenta Fernanda Brenner, diretora do Pivô. Assim como, citando o filósofo Jacques Rancière, diz a artista Dora Longo Bahia – que fez sua estreia no campo cinematográfico com o longa O Caso Dora –, o cinema é, afinal, “a arte da contemporaneidade”. 

As ferramentas do cinema como nova possibilidade de criação

Artista que trabalha na fronteira entre o documental e o ficcional, Jonathas de Andrade está editando seu mais novo filme, O Peixe, para exibir na 32.ª Bienal de São Paulo, que será inaugurada em setembro. “É sobre uma vila de pescadores que têm como ritual abraçar os peixes na hora de pescar, como uma espécie de respeito, de acompanhamento para a passagem para a morte”, conta o criador, que filmou a obra em 16 mm, em outubro de 2015.

A história de O Peixe, entretanto, é uma ficção criada por Jonathas de Andrade. Mais ainda, no sentido de explorar o limite entre o real e o inventado, o artista convidou dez pescadores verdadeiros do vale do Rio São Francisco para serem os “atores” do trabalho. O filme foi concebido para ser exibido em loop e a repetição da narrativa encenada por pessoas diferentes reforçará ou desmontará a dúvida sobre a veracidade do conto.

“Em O Peixe, foi a primeira vez que trabalhei com uma equipe de cinema, o que me fez repensar o modo de produção, me possibilitou uma maior concentração na direção, no controle da fotografia, foram coisas que curti fazer”, afirma o artista. Ele também acaba de realizar outra peça cinematográfica, O Caseiro, na qual cria um espelhamento contemporâneo com o histórico filme Mestre de Apipucos (1959), retrato do cotidiano de Gilberto Freyre realizado pelo cineasta Joaquim Pedro de Andrade. “O cinema oferece ferramentas que experimentei”, conclui Jonathas.

“Hoje em dia, aquilo que a gente experimentava e considerava como realidade é ficção – as relações são ficcionais, a internet é ficcional”, afirmou a artista Dora Longo Bahia na época da estreia de seu primeiro longa-metragem, O Caso Dora. O lançamento da obra também marcou a inauguração, em abril, da sala Antonio, dedicada à exibição de filmes na galeria Vermelho. Com uma tela para projeção e sofás, o espaço apresenta, atualmente, sessões de O Caso Dora e de Xapiri, de Gisela Motta e Leandro Lima – e prepara-se para estrear, no dia 14, um longa dirigido por Guilherme Peters e Roberto Winter.

Outra artista que se dedica à realização de filmes é Niura Bellavinha, que exibiu recentemente em São Paulo o média NháNhá (2014) e tem um longa-metragem de ficção em fase de pré-produção. “Espero filmá-lo no ano que vem”, conta a criadora, que assina o roteiro do trabalho e convidou Alexandre Baxter para a direção de fotografia. “Meu cinema também é pintura e para mim narrativa e ação estão amalgamadas”, define.

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