A escrita praticada nos limites do real

Publicação da Escola Letra Freudiana traz ensaios sobre as fronteiras entre o ato de escrever e o de procurar a verdade

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

09 de maio de 2009 | 00h00

O homem pode arrancar apenas um pedaço da realidade. Jacques Lacan (1901-1981) acreditava que o real rejeita qualquer sentido que pretenda revesti-lo; numa palavra, ele é "impossível". O psicanalista francês disse mais: "O que faz com que a relação sexual não possa se escrever é justamente esse buraco, que toda a linguagem, enquanto tal, tampa." Assim, ele alertou para o hiato "insuperável" entre ciência e verdade, entre o que se busca e o que se encontra. Para refletir sobre essas posições, a Revista da Escola Letra Freudiana (Editora 7Letras, 304 págs.) dedicou toda a sua edição de nº 40 - chamada Do Real, O Que se Escreve? Seu conteúdo é o resultado de colóquios realizados pela instituição entre 2006 e 2007. Além de discutir as incapacidades da palavra diante do real, a publicação apresenta um texto que se destaca pela complexidade de temas analisados a partir de algo aparentemente banal - uma carta. Assinado pelas psicanalistas Andréa Bastos Tigre e Rossely S.M. Peres, o artigo A Quem Pertence uma Carta? aborda as angústias do solitário ato de escrever, por meio do qual o indivíduo se arrisca a ensaiar uma verdade. A reflexão das autoras se fundamenta em perguntas lançadas por Lacan em seu seminário de 1955, durante o qual trabalhou o conto A Carta Roubada, de Edgar Allan Poe. O que é, afinal, uma carta? Ela pertence a quem? A quem a enviou ou a quem é destinada? Em que consiste a dádiva de escrever uma carta? E por que se manda uma carta?Andréa e Rossely lembram que, no século 17, o advento do correio representou um abalo à monotonia da vida cotidiana. Era também uma prova da paixão do ser humano pela escrita e da leitura como força de um acontecimento. Ao ensaiarem respostas às perguntas de Lacan, as autoras evocam as 284 cartas trocadas entre Sigmund Freud e seu amigo Wilhelm Fliess, de 1887 a 1904. Abordando assuntos variados, da intimidade à profissão, essa correspondência pode ser pensada como "o tear em que foi engendrada a psicanálise". Sem fugir das zonas de sombra, Freud exerceu na escrita um meio de investigação especial. Partilhou suas descobertas, uma ruptura com o pensamento de sua época, e fez autoanálise, apontou Lacan.Marcadas pela ausência inerente do outro e pela abolição do "aqui e agora", as cartas, dizem as psicanalistas, são escritas pela vontade do homem de experimentar uma verdade. É quando o escriba se esvazia do conhecimento que tem sobre si mesmo. Ernesto Sabato, elas comentam, cita Cesare Pavese, para quem escrever é comparável ao fuzil que se dispara. Em mensagem a Godofredo Rangel, lembra o texto, Monteiro Lobato afirmou que "o gênero ?cartas? é algo à margem da literatura". Para ele, a correspondência é uma conversa entre amigos, um duo no qual "está o mínimo de mentira humana".Após meditar sobre o que move o autor de uma carta, as autoras tratam do destinatário. Ou destinatários, porque são três os sujeitos a quem se destina toda mensagem: o indivíduo que escreve para si mesmo, para o outro - destinatário original - e para um outro possível de ser atingido antes ou depois de a carta chegar ao endereço pretendido inicialmente.Outra função da escrita, atestam as analistas, é suportar a realidade. Ela é capaz de fazer o sujeito atravessar as experiências complicadas - para dizer o mínimo - da solidão e do vazio, da morte e do inconsciente. Aqui se resgatam os efeitos imponderáveis do ato de escrever sobre aquele que escreve: pode-se tanto tropeçar em algo ignorado como conhecer algo que não se deseja saber. Existir, concluem, é como escrever: não há itinerário preestabelecido nem muitos acertos durante o percurso. Por mais que se planeje, viver não é outra coisa senão avançar tropeçando.

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