''A escrita da auto-ajuda pertence à farmacologia''

Nascido no Rio de Janeiro, em 1961, o poeta Eucanaã Ferraz tem a poesia fortemente influenciada pelas artes plásticas. Ter lido os poemas do mineiro Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, é tão importante quanto ter tido contato com obras do escultor austríaco Franz Weissmann e do pintor francês Henri Matisse. Eucanaã é autor dos livros Martelo (1997); Desassombro (2002, prêmio Alphonsus de Guimaraens) e Rua do Mundo (2004). Lançou recentemente Cinemateca (Companhia das Letras), poemas que manipulam a metáfora da luz em três capítulos - é como se eles "escurecessem" do começo para o fim do livro. Organizou os livros Letra Só, com letras de Caetano Veloso (Companhia das Letras, 2003); Poesia Completa e Prosa de Vinicius de Moraes (Nova Aguilar, 2004), a antologia Veneno Antimonotonia - Os Melhores Poemas e Canções Contra o Tédio (Objetiva, 2005) e O Mundo Não é Chato, com textos em prosa de Caetano Veloso (Companhia das Letras, 2005). Atualmente, Eucanaã coordena a edição da obra completa de Vinicius pela Companhia das Letras. Edita, com André Vallias, a revista online Errática (www.erratica.com.br)e é professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).Que livro você mais relê? E qual a sua impressão das releituras?O volume da poesia reunida de Carlos Drummond de Andrade. É sempre surpreendente, emocionante.Dê exemplo de um livro muito bom injustiçado pelo público ou pela crítica.Não se trata exatamente de injustiça, nem de um livro específico, mas a poesia portuguesa moderna poderia ser mais lida no Brasil.E um livro surpreendente, ou seja, bom e pelo qual você não dava nada.Quando chego a ler um livro é porque "dou algo" por ele.A boa literatura está cheia de cenas marcantes. Cite algumas de sua antologia pessoal.Lembro-me bem de várias cenas escritas por Clarice Lispector, Maupassant, Borges, Nelson Rodrigues. Que personagens são tão marcantes que ganham vida própria na sua imaginação de leitor?Para mim, são mais marcantes certos personagens que se desenham instantaneamente no poema, como em Viagem na Família, de Drummond, que diz: "(...) meu avô já surdo/ querendo escutar as aves/ pintadas no céu da igreja." Que livro bom lhe fez mal, de tão perturbador?Os Passos em Volta, de Herberto Helder.Existe algum autor com o qual você jamais perderia seu tempo? As livrarias estão repletas de livros pelos quais passo com uma indiferença absoluta.Cite um livro que foi fundamental em sua formação, mesmo que hoje você não o considere tão bom como na época em que o leu. El Arco y La Lira, do mexicano Octavio Paz.Os livros de auto-ajuda são mesmo todos ruins, ou isso é puro preconceito da crítica? A literatura inquieta, perturba, desvia, liberta. A auto-ajuda, diferentemente, estabiliza, pacifica, é prescritiva, didática, e sua escrita pertence à farmacologia, não à literatura.Um livro meio chato, mas bom.Se penso num livro chato, não consigo pensá-lo, simultaneamente, como um livro bom. Um livro que você acha que deve ser muito bom mas jamais leu.Eneida, de Virgilio.Um livro difícil, mas indispensável.Os Lusíadas, de Camões.Um livro ruim, por ser pretensioso.Um bom livro tem de ter a pretensão de ser excepcional. A falha é em não estar à altura da pretensão. A poesia de Mário de Andrade, de um modo geral, sofre de tal problema. Já Macunaíma, que é extremamente pretensioso, é um grande livro. Um livro pior do que o filme baseado nele.Decerto, todos os que serviram para os roteiros dos filmes de Alfred Hitchcock.Que livros ficariam melhores se um pedaço fosse suprimido?A prosa sempre corre o risco de ter algo dispensável. Já o poema é uma obra em que tudo significa e, portanto, nele tudo é absolutamente imprescindível.De que livro você mudaria o final? Por quê?Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Preferia que Diadorim fosse mesmo homem (Manuel Bandeira achava o mesmo, e o disse em carta ao Rosa). Que livros contrariam suas convicções mas que ainda assim você julga de leitura imprescindível?Só um grande livro pode suspender nossas convicções. Mas, diante de um grande livro, de que valem as convicções? Cite exemplos de livros assassinados pela tradução e exemplos de boas traduções.Lembro-me das boas. Orlando, de Virginia Woolf, por Cecília Meireles; a tradução "modernista" que Silviano Santiago fez dos poemas de Jacques Prévert; as traduções dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos.A literatura contemporânea é muito criticada. Que livro(s) publicado(s) nos últimos dez anos mereceria, para você, a honraria de clássico?Clássico? Isso daria uma longa conversa. Mas, de qualquer modo, apareceram livros importantes em diferentes gêneros. Para restringir-me à poesia, cito A Cidade e Os Livros, de Antonio Cicero; Máquina de Escrever, de Armando Freitas Filho; Macau, de Paulo Henriques Brito; e os livros de Gastão Cruz, poeta português, publicados no período.Para que clássico brasileiro, de qualquer tempo, você escreveria um prefácio incitando a leitura?Para muitos. Mas, hoje, eu escreveria um prefácio para Poemas, Sonetos e Baladas, de Vinicius de Moraes.Que livros (brasileiros ou estrangeiros) sempre ausentes nos cânones nos quais você votaria?Gostaria de ver, nas listas universais, autores de língua portuguesa, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Eugénio de Andrade e Sophia de Mello Breyner Andresen.Que livro festejado pela crítica você detestou?Não me lembro de nada específico, mas vou às livrarias e folheio livros muito elogiados que não raro acho muito fracos.Quais bons autores você só descobriu alertado pela crítica?Nunca tinha ouvido falar de Luis Miguel Nava, até ver noticiada sua dramática e prematura morte, em 1995. Hoje ele é um de meus poetas preferidos.Cite um vício literário que você considera abominável.O desprezo pela alegria.Que virtude mais preza na boa literatura?As propostas do italiano Italo Calvino: leveza, rapidez, visibilidade, exatidão, multiplicidade, consistência.

O Estadao de S.Paulo

10 de agosto de 2008 | 00h00

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