A escola que ousou desafiar os interesses das academias

A primeira turma acaba de se formar e a festa foi dupla, pois celebrou também a inauguração da sede própria da Escola Municipal de Dança Iracema Nogueira. E quando um projeto torna público o acesso à dança entendida como produção de conhecimento e esse projeto ocorre em uma cidade distante da capital, como Araraquara, é toda a educação brasileira e não somente a de dança que avança.Localizada no antigo Rapa, local que estava abandonado, mas antes abrigara o entreposto no qual os funcionários da Fepasa compravam roupa e mantimentos, a escola foi projetada pelos arquitetos Gustavo Ribeiro e Patrícia Gaion (Quadra Arquitetura). Um desses funcionários era avô daquela que teve o sonho de criar essa escola, enfrentou e venceu todas as dificuldades que cercaram a sua realização, e é sua atual gerente: Gilsamara Moura.Hoje, são 480 alunos e 21 professores. O percurso se inicia quando o aluno tem entre 8 e 9 anos, e cursa a segunda ou a terceira série do ensino fundamental. Durante seis anos, faz aulas de dança contemporânea (a maior carga horária), filosofia, balé, capoeira, sapateado, artes marciais, teatro, música, artes plásticas, criação e improvisação, cultura afro, informática, meio ambiente, inglês, ética e cidadania, nutrição e contato improvisação - o que configura, de fato, esse como um projeto de educação complementar, uma vez que suas aulas são diárias. O curso foi pensado para coincidir com o término da 8ª série do ensino fundamental, para encerrar um ciclo na vida do estudante.Foi esse ciclo que a primeira turma de 19 formandos comemorou, em uma cerimônia que se iniciava nas salas de aula, com a apresentação dos trabalhos de conclusão de curso dos alunos das quarta, quinta e sexta séries. Foram coreografias curtas criadas pelos próprios alunos a partir de projetos que escreveram e encaminharam aos professores que escolheram para atuar como seus orientadores. Nessas obras fica nítido o perfil ousado e inovador da escola.O diferencial parece estar no fato de que na Escola Municipal de Dança Iracema Nogueira a proposta é não separar a dança da vida. Pais, alunos e funcionários assumem que cada um deles é responsável pela construção de um mundo novo. No discurso dos paraninfos estava a síntese mais precisa do que se passa por lá: "Esta não é uma escola só de dança, esta é uma escola que mudou a nossa vida e marcou também a vida de nossos pais e amigos, pois foi aqui que aprendemos a sonhar e a realizar os nossos sonhos."Os percalços enfrentados para que a escola existisse não são exclusivos de Araraquara, pois configuram uma situação endêmica no Brasil: em quase todos os municípios onde existe ensino de dança, ele se faz via academias privadas, que perpetuam a tradição oral e, quase sempre, entendimentos que ignoram os avanços conquistados pelos que pesquisam educação em dança. Por contrariar os interesses comerciais das academias solidamente estabelecidas, que entendiam o projeto como uma concorrência ameaçadora, o embate foi duro e difícil.Escrito em 2001, o projeto só conseguiu derrotar a hegemonia do sistema educacional que mantém a dança como propriedade privada dos que podem pagar pelo seu ensino em outubro de 2002. Mas há algo que merece ser destacado: um dos traços distintivos da escola, o sentido de coletivo, parece ter nascido com ela, pois a reforma do prédio foi realizada com recursos do Orçamento Participativo. A escola é formada por salas de dança, artes marciais, sapateado, música, artes visuais, um espaço multiuso, um palco, camarins, vestiários, lanchonete, cozinha, depósito de cenografia, sala de reunião, de informática, e da administração. Um teatro de arena, já projetado, ainda vem por aí.O mais impressionante, contudo, é o que acontece nesse espaço, pois no seu sexto ano de existência, a Escola Municipal de Dança Iracema Nogueira já pode ser considerada uma referência em educação de dança no nosso País. Antes mesmo de conhecer o trabalho específico de dança que lá se realiza, quem chega consegue perceber algo diferenciado. Não somente porque há citações muito preciosas do educador Paulo Freire espalhadas pela escola, mas porque a atitude dos alunos revela uma combinação de autonomia e disciplina que instiga.O modo como se relacionam com o entorno explicita um sentido de pertencimento quase palpável. Lembra o conceito de multidão do filósofo italiano Antonio Negri (2003), no qual a pluralidade não converge para a unidade, pois as singularidades não almejam se dissolver em uma única homogeneidade; elas desejam preservar-se como indivíduos que compartilham e atuam juntos. Segundo Negri, a multidão é a "forma de existência política e social dos muitos enquanto muitos". Implantar um processo educacional com premissas assim faz uma enorme diferença.Como vivemos no Brasil, onde prolifera a abominável cultura de que quem chega ao poder dispensa quem construiu os quatro anos anteriores, e os governos municipais serão trocados no primeiro dia do novo ano, há que se preocupar com a continuidade desse importante projeto. Para que algo do valor da Escola Municipal de Dança Iracema Nogueira se consolide e possa inspirar outros projetos semelhantes, há que se zelar para que sua qualidade não seja ameaçada. Afinal, um projeto que nasceu para vencer preconceitos, para provar que a dança é mais do que a transmissão de seus passos, precisa de tempo para se replicar.

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