A escola como fonte de inspiração para os escritores

Livro reúne seleção de cem textos que comprovam a importância do ensino na obra de autores brasileiros

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

01 de abril de 2009 | 00h00

A escola e o escritor, uma relação tão delicada - professor da USP, Flávio Aguiar iniciou, anos atrás, uma pesquisa em que buscava detectar na produção literária dos autores mostras da importância de sua formação educacional. Encontrou vestígios que remontam a séculos passados, desde o início da colonização brasileira, como escritos do padre José de Anchieta. Diante de um volume tão grande, resolveu selecionar cem textos, que compõem o livro A Escola e a Letra (Boitempo, 218 páginas, R$ 49), que será lançado hoje no Sesc Pompeia, com um grande evento: estarão presentes autores lembrados na obra, como Affonso Romano, Boris Schnaiderman, Ivan Angelo e Roniwalter Jatobá."Acredito que a formação de um escritor é fundamental, mais importante que a própria família", comenta Aguiar, que organizou o livro com Og Dória. "Na escola, os horizontes se ampliam no tempo e no espaço, aumentando a percepção de mundo." E a antologia comprova que a escola é deflagradora do processo.O projeto de A Escola e a Letra nasceu em 1997, como parte da comemoração dos 60 anos do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, o Inep. Se não vingou naquele momento, permitiu que Aguiar promovesse uma ampla pesquisa ("Tenho material para mais quatro volumes") de textos de épocas distintas que têm por tema ou pano de fundo a escola e os processos de ensino e aprendizagem comuns na sociedade brasileira.Assim, a antologia, que tem projeto gráfico de Ricardo Ohtake (cada texto selecionado recebeu um tratamento diferenciado), traz desde referência a histórias em que a escola é espaço vital na trama (como O Ateneu, de Raul Pompéia) até aquelas em que o ensino vem do próprio ato de viver. É o caso de Meninão do Caixote, de João Antônio, em que a mesa de bilhar desponta como uma espécie de escola. "Ali, o personagem aprende qualidades importantes como lealdade e esperteza", comenta Aguiar, que foi amigo de João Antônio.O banco escolar, aliás, não é referência constante em todos os textos selecionados. Flávio Aguiar separou, por exemplo, um fragmento do livro Guerra em Surdina (Cosac Naify), em que o professor e tradutor Boris Schnaiderman descreve a formação de um soldado em plena guerra, cujo aprendizado vem do medo de morrer, descoberto trágica e pateticamente em meio a balas perdidas e gritos de desafio.O texto que abre a antologia é um poema escrito por Murilo Mendes evocando Sumé, personagem que, segundo antigos registros deixados pelos jesuítas, tem origem entre os povos nativos do continente na época da chegada dos europeus. "Ou seja, mitologicamente, foi nosso primeiro professor de quem se tem algum registro."Em meio a uma diversidade de temas e perspectivas, Flávio Aguiar encontrou alguns pontos em comum nos textos, como o sentido missionário do ensino, a presença da religião, a evocação da infância, experiências de iniciação da vida (sexo, memória, consciência da morte), marcas autoritárias do ensino e os processos de massificação. "O leitor vai ter a impressão de que quase todo escritor brasileiro tem um professor, um colega, um pedaço de escola a recordar e que aí, ou com esse personagem, se deu algo da escolha de escrever", escreve Aguiar, na introdução do livro. "O esforço catequético dos jesuítas pode nos parecer ter tanto de desagregador quanto de construtivo; a fé dos românticos em seu nacionalismo pode nos parecer ingênua e a dos positivistas nos poderes do ensino, exagerada; muito do que nossos escritores mais evidenciam em suas obras nos evocam cenas de atraso e tacanhice", afirma ainda.A antologia, no entanto, com reconhece o próprio organizador, tem lacunas. O principal motivo foi a falta de concordância dos responsáveis pelos direitos autorais de alguns escritores em liberar a publicação. Outros autores, ainda vivos, também não responderam ao pedido dos organizadores. Assim, a lista das obras consta no final da apresentação de Aguiar, despontando com um importante complemento de leitura.

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