A dramaturgia ganha espaço além do palco

Pelo Brasil afora, universidades e grupos pesquisam produção e autores nacionais e também crescem publicações do gênero

Paula Chagas Autran, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

Além dos palcos, a dramaturgia contemporânea brasileira vem ganhando espaço também nas universidades, por meio de estudos feitos por pesquisadores na graduação, mestrado e até mesmo doutorado nos cursos de artes cênicas e literatura pelo país afora. "Apesar de haver poucas publicações de dramaturgia contemporânea no Brasil, os estudos continuam a ser feitos", garante André Luis Gomes, de 44 anos, professor de literatura comparada da Universidade de Brasília. "E, a partir da década de 90, a publicação de peças vem aumentando no País." Para chegar a essa afirmação, Gomes realizou um minucioso levantamento com estudantes que com ele formam o Grupo de Estudos em Dramaturgia e Crítica Teatral do curso de letras da UNB. "A pesquisa abrange desde 1958, ano da publicação do marco da dramaturgia contemporânea brasileira, Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, até 2006", conta. Deixaram de fora textos ganhadores de concursos que não foram publicados por editoras. "Assim, poderíamos ter uma idéia real da dramaturgia no mercado editorial nacional e como ela ajuda a contar a história do teatro brasileiro", assegura. O foco do estudo, no entanto, não é o mercado editorial, e sim a dramaturgia e seus autores. "Fizemos um primeiro estudo sobre os aspectos formais da publicação: ficha técnica, informações sobre as montagens, etc.", conta. "Depois fizemos um levantamento sobre os autores: sexo, região de nascimento, etc., e por último analisamos os personagens: quem são, quais características são colocadas pelo autor, como cor, idade, classe social." O grupo agora se aprofunda em autores específicos. "Já há uma orientanda estudando Maria Adelaide Amaral e outro dedicado a Paulo Pontes."Apesar do aumento das publicações de dramaturgia, a constância maior ainda é de peças que fizeram sucesso e as de autores consagrados com alguma passagem pela televisão ou cinema. "É muito difícil ver a publicação, por exemplo, de textos inéditos ou de autores iniciantes", constata Gomes.Esse obstáculo, no entanto, não intimida os pesquisadores da dramaturgia contemporânea. "Para chegar aos seis textos que estudei no mestrado, li cerca de 80", conta Cássio Pires, de 32 anos, dramaturgo e professor da Escola Superior de Artes Célia Helena. "Na maior parte das vezes os autores me passavam o material por e-mail." O mesmo percurso feito pela maioria dos pesquisadores. "Tive de ir até a França para ver que poderia estudar textos nacionais no doutorado", revela Luís Claudio Machado, de 42 anos, tradutor e professor da Universidade de Sorocaba. "Disse para o teórico francês Jean Pierre Ryangaert que queria prosseguir a pesquisa sobre o dramaturgo francês Bernard-Marie Koltès e ele perguntou por que não estudava a dramaturgia do meu país." E foi o que fez. KOLTÈS"Decidi estudar a obra de Koltès em comparação a textos brasileiros. Passei a ir mais ao teatro e conheci textos de Fernando Bonassi e Dionísio Neto, que estudei em meu doutorado, orientado pela professora Maria Cecília Queirós, além de muitos outros." Para encurtar o caminho entre seus alunos e a produção atual de dramaturgia, Machado leva para a sala de aula os textos contemporâneos. "Já fizemos trabalhos com Newton Moreno, Mário Bortolotto, entre outros", comemora.Pires não foi tão longe quanto Machado, mas deu algumas voltas para mudar o foco inicial de seu mestrado, o teatro musicado do século 19, para a dramaturgia contemporânea. "Os registros textuais dessa época eram poucos e a maior parte estava na Biblioteca Nacional do Rio." Com a sua orientadora, a professora e crítica teatral Silvana Garcia, decidiu partir para o estudo da forma no texto de teatro contemporâneo. "Escolhi as seis peças não por gosto, mas pela diversidade das estruturas formais." Em seu trabalho, Pires incluiu autores como Bosco Brasil e Aimar Labaki. E também tenta aos poucos introduzir seus alunos nesse universo. "Eles, de modo geral, são familiarizados com textos mais antigos e num primeiro momento têm certa resistência de ver e estudar a nossa dramaturgia atual."O ator e arte-educador Walmir Pavam, de 37 anos, também teve de recuar no tempo para chegar à dramaturgia contemporânea, tema de seu mestrado, ainda em andamento. "Iria estudar o operário no teatro da década de 60", conta. "Eu me deparei com muitos estudos sobre o tema, e me dei conta que o trabalhador se modificou muito", constata. Com sua orientadora Berenice Raulino, optou por estudar três textos atuais com a temática do trabalho: Bartolomeu, o Que Será Que Nele Deu?, de Cláudia Schapira; A Comédia do Trabalho, de Sérgio de Carvalho e Márcio Marciano, e Borandá, de Luís Alberto de Abreu. Pavam estuda também o processo de escrita dos textos, feitos em processo colaborativo respectivamente com os grupos: Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, Cia. do Latão e Fraternal Cia. de Artes e Malas-Artes. "A busca por esses textos não foi tão árdua, pois Borandá eu vi no palco, Bartolomeu foi publicado pelo Centro Cultural São Paulo. E A Comédia do Trabalho foi lançada pela editora Cosac Naify", comemora. Pavam também aproveita o estudo para finalizar a peça Percurso para a Felicidade Total, baseada no mesmo assunto. "Comecei a pesquisa para escrever a peça e acabei estendendo para o mestrado", comenta Walmir Pavam.Ana Maria Rebouças, de 43 anos, curadora associada de teatro do Centro Cultural São Paulo, nunca teve dúvidas que seu foco de estudo no mestrado seria a dramaturgia contemporânea. "Claro que é importante o estudo do passado mais longínquo, mas para mim interessa entender de que jeito as pessoas da minha época pensam e como colocam isso no palco", afirma. "Com esse ponto de partida fiz, no estudo, a comparação e a inserção desses textos contemporâneos com a produção anterior." Para isso, Ana Maria estudou três processos de criação de dramaturgia: O Livro de Jó, parceria do diretor Antônio Araújo com o dramaturgo Luís Alberto de Abreu. Caliban, dramaturgia do ator Marcos Azevedo em cena, e Opus Profundum, dramaturgia do autor que escreve sozinho, de Dionísio Neto. Ana Maria, que foi orientada por Sábado Magaldi, teve ao longo de seu estudo, intenso contato com os artistas que analisou. "Para mim, importava bastante o processo e a maneira como aquele texto se relacionava com a cena e era modificado por ela", conta. "Percebi quanto há diversidade nos processos de escrita no teatro contemporâneo e quanto a cena nesses processos acaba se tornando parte integrante do próprio texto", adianta.Para que os estudos tenham maior circulação, foi idealizado o Grupo de Trabalho (GT) de Dramaturgia e Teatro, vinculado à Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística (Anpoll). Formado por cerca de 20 docentes de diferentes universidades do País, o grupo se reúne anualmente e lança a cada encontro uma publicação com os trabalhos de seus membros. "No GT pensamos a dramaturgia na sua relação com outras áreas, com outras tradições teatrais e questões específicas, como as rubricas (indicações cênicas)", afirma André Luis Gomes, atual coordenador do grupo. As publicações do GT, como Dramaturgia e Teatro e Dramaturgia em Cena, foram organizados pelos professores Ricardo Aquino e Sheila Diab Maluf e editados em co-parceria pelas editoras da Universidade Federal de Alagoas e da Universidade Federal da Bahia. A nova publicação do GT com os estudos mais recentes deve sair nos próximos meses. "Nosso intuito é cada vez mais unir a academia, os artistas e as editoras para, juntos, entendermos como o texto teatral retrata uma época e ajuda um povo a se entender melhor", finaliza. O site da Anpoll é www.anpoll.org.br e o do professor Gomes com parte desses estudos é: www.andrelg.pro.br.

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