A dimensão paranoica de Pynchon

Sem muita complexidade, Inherent Vice volta à Los Angeles dos anos 70 numa história de mistério com final decepcionante

Michiko Kakutani, O Estadao de S.Paulo

08 de agosto de 2009 | 00h00

Inherent Vice (Vício Oculto), novo romance de Thomas Pynchon, nos coloca em uma grande e desengonçada máquina do tempo, para uma viagem de volta ao início dos anos 70, onde encontramos uma Califórnia de surfistas e bonequinhas de praia, de gatas de motocicleta, hippies, freaks e maconheiros moralistas. Era uma época em que as pessoas viviam em função da Acapulco Gold e Panama Red (dois tipos de maconha), só comiam pizza e bolinhos Hostess Twinkies, um tempo no qual as garotas usavam cabelos longos e saias curtinhas, os homens gostavam de roupas de cashemir, veludo e camurça, e as pessoas controlavam a toda hora seus níveis de paranoia, preocupadas com as drogas, com a polícia e com os federais. Comparado a Gravity Rainbow (O Arco-Íris da Gravidade) ou V.(Vineland) ou Mason & Dixon (editados no Brasil pela Companhia das Letras), este romance é um Pynchon mais leve. As obras anteriores se caracterizavam por narrativas intricadas, labirínticas, e confrontos enigmáticos entre os que ele chamou de "pobres desgraçados" e os representantes de "uma ordem tecnopolítica emergente" que talvez soubessem o que estavam fazendo. Em contraposição, Inherent Vice é uma simples história de mistério com um final decepcionante, que coloca os maconheiros simpáticos frente a frente com a polícia de Los Angeles e seus agentes que combatem a "subversão", um romance em que a paranoia é menos um estado político ou metafísico do que um subproduto do consumo excessivo da erva.O livro não só nos lembra quão arraigada é a visão do autor Pynchon nos anos 60 e 70, como também desmistifica sua obra, ressaltando as semelhanças que suas narrativas - nas quais se misturam alusões culturais do mais alto nível ao mais baixo, brincadeiras bobas e referências históricas morais, maliciosos jogos de palavras , sequências surreais, oníricas, e um sentido brincalhão do absurdo - têm com a obra de artistas como Bob Dylan, Ken Kesey, Jack Kerouac e até mesmo Richard Brautigan. Como Vineland, sua outra ode à era da contracultura, este romance evoca uma Califórnia em que os personagens falam a linguagem enrolada, desconexa do sujeito doidão, chapado. É uma Califórnia que lembra a que Tom Wolfe retratou em The Pump House Gang e em The Electric Kool-Aid Acid Test, um lugar que contrasta profundamente com o conformismo capitalista da "Midol America"(o autor brinca com o termo ?middle America?, Midol é um remédio muito comum contra cólicas menstruais), que, segundo Pynchon sugeriu, se instalaria na era Reagan, nos anos 80. O herói de Inherent Vice teme que os "psicodélicos anos 60, este pequeno parêntese de luz, pudessem fechar-se, e perder-se para sempre, devolvidos à escuridão", que "tudo neste sonho de pré-revolução na realidade estivesse fadado a acabar", com o "mundo descrente, movido apenas pelo dinheiro" reafirmando "seu controle sobre as vidas que se julgava no direito de tocar, acarinhar e molestar". Se Vineland é lida como uma obra sem grandes problemas de compreensão, complementar de The Crying of Lot 49 (O Leilão do Lote 49, Companhia das Letras), Inherent Vice é lida como um competente improviso de Vineland. Mais uma vez, o enredo gira em torno da busca de uma mulher que desapareceu, uma ex-hippie que se uniu a um pouco plausível representante da máquina do poder capitalista. E, mais uma vez, os grupos de poder se esforçam por integrar hippies e maconheiros ao lado negro, por transformá-los em informantes por meio de programas de reeducação ou pelo atrativo do dinheiro. Neste caso, o herói é um certo Doc Sportello, detetive particular - "gumshoe" (sapato de borracha), ou "gum sandal" como os detetives são chamados - que atende ao pedido de sua antiga namorada, Shasta Fay, para apurar um suposto complô contra seu atual namorado, Mickey Wolfman, um magnata da área imobiliária. Logo Shasta e Mickey desaparecem, e Doc descobre que seu desaparecimento converge para outros casos de que está tratando: a procura de um ex-detento, Glen Charlock, que foi um dos guarda-costas de Mickey, e a busca de um ex-músico de rock, Coy Harlingen, que morreu supostamente de overdose de heroína, mas ainda pode estar vivo. Além de lidar com um adversário que não consegue vencer, o detetive Bigfoot (Pé Grande) Bjornsen, Doc se defronta com os sinistros representantes de uma misteriosa entidade conhecida como Golden Fang (Caninos Dourados), que pode ser um cartel de heroína indochinês, uma holding fantasma ou uma associação criada por dentistas para sonegar impostos. Ele investiga também um matador de aluguel "especializado em políticos" - ativistas negros, chicanos, pessoas que protestam contra a guerra, e outros extremistas. Evidentemente, os enredos picarescos de Thomas Pynchon são árvores de Natal nas quais ele pendura toda espécie de enfeites, guirlandas e luzes, e o enredo de Inherent Vice não é nenhuma exceção. Há conversas e mais conversas chapadas com indagações sobre "portas para outras dimensões" ou sobre um continente perdido chamado Lemuria, "a Atlântida do Pacífico". Há também tímidas alusões, repletas de autorreferências a romances anteriores de Pynchon, como o "estilingue para entrega de correspondência", que lembra o sistema de correios de The Crying of Lot 49; e "uma risada cósmica insana à la Surfaris" que explode como um berro "pelo céu", e nos lembra a abertura do O Arco-Íris da Gravidade.Os casos levam Doc a um cassino de Las Vegas, a um hotel onde está instalada uma banda de rock?n? roll em Los Angeles, um salão de massagens brega, um clube decorado com motivos asiáticos em San Pedro, uma aldeia utópica abandonada no meio do deserto, um retiro da New Age perto de Ojai, e a idas e vindas pelas vias expressas de Los Angeles, proporcionando ao leitor um tour pela cidade em sua fase paranoica pós-Manson. Pynchon realiza um trabalho vívido, surpreendentemente naturalista de reconstituição da cidade no ano de 1970 - quando os Lakers perderam para os Knicks na partida decisiva -, captando a aura tranquila, ligeiramente desgastada de uma metrópole que continuava atraindo como um ímã os vagabundos, os sonhadores e os drogados, e que ainda não vivia em função dos grandes sucessos cinematográficos e dos multiplex e do dinheiro da avenida Rodeo Drive. Entretanto, os personagens deste romance são decididamente menos tridimensionais. Com a exceção de Doc, que tem um leve charme enternecedor, assemelham-se muito menos aos heróis absolutamente humanos de Mason & Dixon do que às frágeis bonecas de papel que povoavam grande parte de sua ficção inicial: coleções de engraçados nomes pynchonianos, tiques curiosos, ocupações estranhas e predileções sexuais ainda mais estranhas. Muitos parecem existir por nenhuma outra razão a não ser pelo fato de que Pynchon os criou e os introduziu na história, para preencher espaços ou para dar uma falsa pista ao leitor durante a investigação que Doc realiza para encontrar Shasta e garantir a sua segurança. Embora Inherent Vice mostre um trabalho muito mais coerente do que o romance anterior do autor, o grandiloquente e pretensioso Against the Day, se assemelha mais a uma versão para quadrinhos de um romance de Pynchon do que à obra em si. Ele reduz as complexidades bizantinas de O Arco-Íris da Gravidade e de V. - e suas justaposições de niilismo e conspiração, de caos dionisíaco e razão apolínea, de liberdade anárquica e de engrenagem do poder - a um confronto entre um maconheiro amável, cuja "política foi tentar ser simpático com quase tudo", e um sistema policial corrupto. Não é surpresa então que o leitor se sinta encorajado, como observa um personagem se referindo à tira "Krazy Kat" de George Herriman, a "torcer por Ignatz", o rato anarquista, que gosta de jogar tijolos, e não pelo policial Pupp, o representante da lei e da ordem. TRADUÇÃO DE ANNA MARIA CAPOVILLA

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