A dimensão humana das guerras

Andrew Carroll reuniu, em Cartas do Front, correspondência de soldados e civis que participaram de diversos conflitos

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2013 | 00h00

Em dezembro de 1989, um incêndio destruiu a casa de Andrew Carroll, em Georgetown, nos Estados Unidos. Não houve feridos, mas toda sua memória afetiva (livros, fotos e cartas de família) virou cinza. A perda irrecuperável inspirou-o a comandar um projeto importante e original: resgatar e preservar documentos cujo valor histórico não era reconhecido por seus portadores. Especialmente cartas escritas por soldados durante as diversas guerras. Para isso, colocou um anúncio no jornal solicitando esse tipo de correspondência. Dias depois, recebeu um telefonema do correio. ''''Eles me pediam para buscar o material enviado e recomendavam que eu fosse com um carro grande'''', diverte-se Carroll, ao lembrar do início do Projeto Legacy, fundado para preservar a memória dos conflitos.Carroll conversou com o Estado ainda em território norte-americano, antes de vir para a Bienal do Rio. Seu entusiasmo é tamanho que ele organizou o volume Cartas do Front (Jorge Zahar Editor, 440 páginas, R$ 59), cujo lançamento ele vem acompanhar pessoalmente. Trata-se da correspondência de soldados e civis que participaram de vários conflitos na história mundial, desde mensagens manuscritas da Guerra de Independência norte-americana aos e-mails enviados do Afeganistão. ''''Recebemos cerca de 80 mil correspondências, quase todas trazendo relatos assinados por testemunhas oculares das guerras, que traduzem o calor do conflito e oferecem um documento histórico inestimável.''''No material, de fato, há momentos cruciais, como a descrição feita por um soldado que estava na base de Pearl Harbor quando houve o ataque japonês, obrigando os americanos a entrarem na 2ª Guerra Mundial. Desse conflito, aliás, há um capítulo exclusivo com cartas trocadas por pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que lutaram na Itália, selecionadas por Arthur Ituassu, que enviou cópias traduzidas para Carroll. ''''Fiquei extremamente feliz com esse trabalho'''', disse o autor. ''''Espero conseguir olhar pessoalmente esse material enquanto estiver no Brasil.''''O material do livro é variado. Há, por exemplo, uma descrição detalhada do ataque terrorista a Nova York, em 11 de setembro de 2001, feita por um sobrevivente. Também e-mails e cartas de civis iraquianos sobre os bombardeios a Bagdá na guerra contra o Iraque em 1991, bem como sobre os ataques terroristas mais recentes, após a deposição de Saddam Hussein em 2003.Muitos relatos são comoventes. Como o de um menino polonês chamado Chaim - em um campo de concentração alemão - aos seus pais: ''''Toda noite, soldados bêbados vêm e nos batem com pedaços de pau. Meu corpo está coberto de escoriações como madeira queimada... Outro dia, dois rapazes escaparam, então nos alinharam e cada quinta pessoa da fila foi morta. Eu não ocupava a quinta posição, mas sei que não sairei vivo daqui.''''Outras cartas provocam gargalhadas - como a escrita por uma mulher alemã ao comandante de seu marido na 1ª Guerra Mundial: ''''Eu, abaixo assinada, tenho um pedido a lhe fazer. Embora meu marido esteja em serviço há apenas quatro meses, gostaria de solicitar que lhe fosse concedida uma licença, devido à nossa relação sexual.''''Há, ainda, a revelação de verdadeiras traições, como no caso de um casal que se conheceu antes da 2ª Guerra. Quando ele partiu, prometeram escrever sempre que possível, mas, com o tempo, a mulher desconfiou que não era amada, pois o soldado não lhe escrevia. Na verdade, a irmã da moça, possuída pelo ciúme, interceptava as cartas.''''É por isso que adoro todo tipo de correspondência'''', conta Carroll. ''''Infelizmente, as tropas americanas participaram de quase todos os últimos conflitos ocorridos no planeta, por isso, nossos soldados conseguem trazer relatos vibrantes muitas vezes sem saber, pois estão apenas reproduzindo o que estão vivenciando.''''Carroll lembra que boa parte do material não sofreu censura do governo, mesmo em conflitos duramente criticados, como as Guerras do Vietnã e da Coréia. ''''Nem durante a Guerra Civil houve qualquer tipo de problema'''', conta. ''''Na verdade, o veto era mais comum durante as Guerras Mundiais.'''' Segundo o escritor, os soldados acabaram criando códigos particulares para conseguir contar o que realmente estava acontecendo nos campos de batalha.Como o desentendimento entre os homens parece eterno, Carroll sabe que seu trabalho parece não ter fim. Mesmo assim, ele garante que vai comandar o Projeto Legacy durante muito tempo. E viagens como a que fará ao Brasil servem para alertar outras comunidades sobre a importância desse trabalho.

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