A difícil passagem para o mundo dos brancos

Ainda vigora o julgamento de Florestan Fernandes segundo o qual os negros foram barrados na cena histórica nacional

Leonardo Trevisan, O Estadao de S.Paulo

05 de janeiro de 2008 | 00h00

O que é mais efetivo para a democracia racial brasileira: um casal negro no anúncio para vender apartamentos de alto luxo, ou a imposição de cotas raciais na USP, a melhor universidade pública do País? É curioso, mas Florestan Fernandes, professor aposentado pelo regime militar, deputado pelo PT, que conheceu o sindicalista Lula dizendo: "não me ajoelho para o deus operário", que passou a vida combatendo o mito da democracia racial brasileira, provavelmente responderia a pergunta sobre apartamentos ou cotas discutindo sua premissa. Será que entrar nos melhores lugares dos brancos resolve o problema dos negros no Brasil?Aliás, tratar dessa dúvida foi o que fez Florestan no livro de 1972, O Negro no Mundo dos Brancos (Global, 315 págs., R$ 45). Três décadas e tanto depois, pouca coisa se moveu nessa situação. Por exemplo, os dados do IBGE de 1960 sobre a porcentagem de estudantes negros nos cursos universitários de elite são praticamente os mesmos de hoje. No livro, Florestan reconhecia que sua maior preocupação era pôr em evidência o "sentido global e as conseqüências fatais do ajustamento" do negro e do mulato à sociedade brasileira. Antes de atingir a democracia, o negro e o mulato têm de "aceitar a padronização e a uniformização" e, então "eles se perdem como raça e como raça portadora de cultura". A imagem de Florestan é forte e objetiva: as portas do mundo dos brancos "não são intransponíveis", mas para atravessá-las os negros passam por um processo de "branqueamento"; nele "unidade nacional, civilização moderna e dominação dos setores privilegiados dos brancos" estão misturados e darão as cartas do jogo.É preciso cautela para entender o que queria dizer Florestan com essa imagem. Embora parcela da população negra participe, até em número considerável, das "conquistas do progresso" não se pode afirmar, como garantia o ex-professor da USP, que eles compartilhem "coletivamente das correntes de mobilidade social vertical da sociedade de classes". Ele reconhecia que essa conclusão contrariava o que se costumava dizer sobre democracia racial e ponderava: é que se confundem padrões de tolerância, imperativos no decoro social com "igualdade racial propriamente dita". Com rigor científico, via estatísticas do IBGE, Florestan mostrava que negros e mulatos estavam longe de participar de oportunidades ocupacionais em condições de igualdade com o branco. Depois de décadas, o que mudou? Há meses, a mesma fonte, o IBGE, mostrou as diferenças salariais entre brancos e negros, com idêntica escolaridade. No Brasil, na opinião de Florestan, o negro não entrou no mundo dos brancos. Foi o branco que construiu, na visão dele, o mito de que o negro entrou no seu mundo, por meio do "preconceito de não ter preconceito", a base do mito da democracia racial brasileira. A atitude dos brasileiros diante do "preconceito de cor" é de considerá-lo ultrajante (para quem o sofre) e degradante (para os que praticam). O autor do clássico Integração do Negro na Sociedade de Classes (esgotado) notou que essa polarização de atitudes é fruto do ethos católico e está tão forte, no presente, pelo modo como se desagregou a sociedade tradicional. No passado, a escravidão minava os mores cristãos por pedir aos católicos uma visão de mundo cristã, o lado de uma prática adversa "às obrigações ideais do católico". Mesmo com o fim da sociedade tradicional, o branco continuou exibindo severa consciência de sua responsabilidade na degradação do negro, ao mesmo tempo em que encontrava grande dificuldade em converter em realidade o ideal de fraternidade cristão católico que professava. Era, no dizer de Florestan, uma típica "acomodação contraditória", construindo uma moral reativa que gera o "preconceito de não ter preconceito". Ao contrário do branco reconhecidamente racista, a ideologia racial dominante no Brasil é construída por "subterfúgios". Nesse quadro, questão racial é vista a partir do risco da imitação, da influência externa ("inovação estranha ao caráter brasileiro"), ou pior, do "complexo do negro".No mundo do trabalho, a questão da raça assumiu outras características. Por exemplo, a imigração européia, acelerada no final do século 19, coincidindo com a Abolição, teve papel essencial no modo de inclusão do negro na sociedade de classes. O maior problema do negro recém-liberto estava na incapacidade da sociedade nacional de criar economia capitalista expansiva capaz de absorver o ex-escravo. Como perdia a competição com o imigrante livre, o negro se converteu na expressão de Florestan em "resíduo racial". Perdeu a condição social que tinha no regime da escravidão e se transformou na categoria mais baixa da "população pobre", exatamente quando alguns estratos dessa população participavam das novas oportunidades do trabalho livre. Nesse quadro forma-se um monopólio das melhores possibilidades pelos brancos. A imagem mais significativa de Florestan é que a revolução burguesa barrou o negro da cena histórica brasileira.Na grande acomodação contraditória que vive a chamada democracia racial brasileira, o cidadão consciente reclama e exige que negros não tenham só o papel de serviçal na novela das oito, mas não aceita sequer participar do debate sobre cotas raciais no trabalho ou na universidade por considerar a iniciativa um racismo às avessas. A questão não está no fato de cotas representarem boa ou má solução (um outro problema), mas na forma que toma o debate, monotonamente repetitiva da "acomodação contraditória" que Florestan percebeu nos anos 60. É possível também criticar Florestan, como muita gente fez nos últimos anos. Enfim, os negros libertos não agiam apenas passivamente, na lógica da sobrevivência e nada mais. Muitas vezes enfrentaram a sociedade que os excluía. O importante, no entanto, está na percepção do professor sobre a "reposição do preconceito" mesmo quando a ordem histórica que o gerou já acabou. Na verdade, isso é o que mais incomoda: a interpretação de Florestan sobre o mito da democracia racial brasileira permanece atual, depois de tantos anos. Era exatamente o que ele não queria. Perfil FLORESTAN FERNANDES: Professor marxista da USP, ele criou uma trajetória singular na sociologia brasileira e militou em movimentos contra as injustiças sociais. Perseguido pela ditadura militar, Florestan (1920-1995) estudou a realidade social do País e consolidou a sociologia crítica com obras fundamentais, entre elas Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento (1968) e A Revolução Burguesa no Brasil (1975).

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