A difícil escolha da garota Jéssica

Em Deserto Feliz, Paulo Caldas discute o sonho imaginário com o Primeiro Mundo

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

01 de dezembro de 2008 | 00h00

O ar de renovação do cinema brasileiro vem do Recife. Bem, talvez não apenas de lá, mas a verdade é que alguns dos diretores jovens mais inovadores pertencem ao chamado "árido movie", slogan criado por eles para designar as produções de um grupo de pessoas antenadas num cinema que busca o inusitado e impactante ao nível da forma e as contradições sociais como temas de preferência. É assim Deserto Feliz, terceiro longa-metragem de Paulo Caldas. Ele já tem em seu currículo duas co-direções - Baile Perfumado, com Lírio Ferreira, e O Rap do Pequeno Príncipe, com Marcelo Luna.Nessa estréia "solo", Paulo Caldas mostra-se diretor de mão segura, consciente da linguagem, incisivo no que tem a dizer. Os temas abordados são o contrabando de animais, turismo sexual, violência contra crianças. E, num segundo plano, que passa para a frente da cena, aparece a questão da identidade nacional, o sonho do brasileiro com o mundo lá de fora, que imaginariamente representa a segurança e - por que não? - a felicidade.A personagem principal é Jéssica (Nash Laila, extraordinária), garota que vive com a mãe no interior de Pernambuco, e, depois de violentada pelo padrasto, foge para o Recife. Na cidade grande, cai na mais óbvia das armadilhas e torna-se garota de programa. Tira a sorte grande e conhece um rapaz alemão, Mark (Peter Katnath), que a leva para sua terra.Estranha, a história de Jéssica, sobretudo quando contada com os recursos visuais escolhidos por Caldas e realizados por seu fotógrafo, Paulo Jacinto dos Reis, o Feijão. Por exemplo, as imagens do treme-treme do Recife e na câmera que mostra o olhar vertiginoso dos andares superiores - uma altura que, poderia-se dizer, induz ao suicídio. Também nas imagens brancas da neve alemã, o "deserto feliz" de que fala o título, e para onde Jéssica vai em busca de seu porto seguro.O ritmo da desilusão é muito rápido. Se o inferno das condições sociais não recomenda a permanência no Brasil, o estranhamento alemão também não premia a fuga para o exterior. Jéssica procura seu lugar. O filme não lhe oferece saídas fáceis. Nem o Brasil. Ou a Alemanha.

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