A diferença entre Brasil e Portugal

Após um intervalo de quatro quilos, voltei a praticar o pedestrianismo sistemático, inspirado pelo Ronaldo. Encontro o professor Antonio Pedro Tota na ilha, em meio à Avenida Sumaré, na ponte que atravessa a Rua João Moura. Ele vem do lado de Pinheiros, eu do Jardim das Bandeiras e partimos a pé em direção ao Parque Antártica. Marcha forçada. Para não chamar a atenção dos motoristas, o professor deixou de levar a bengala nessas caminhadas. Achei melhor assim.Num dos nossos encontros, semana passada, o Tota me trouxe um livro. Levo sempre uma mochila para essas eventualidades. Disse que tinha sido enviado pela professora Denise, da PUC, amiga nossa. É uma coleção de crônicas, A Causa das Coisas, escritas por Miguel Esteves Cardoso. "Ela mandou dizer", completou, "que esse cara é você em versão lusitana."Quem me dera. Conheço alguma coisa dele. Mario Prata me apresentou Miguel Esteves Cardoso, depois de uma temporada sua em Cascais, há uns dez anos. Na época li e gostei, é um grande cronista, mas não cheguei a cultivar o autor, que é famoso em Portugal, "uma instituição", segundo a Wikipedia. Nunca comprei nenhuma obra do MEC, como ele é conhecido por lá. Pedi ao Tota para agradecer à Denise. Ele arrematou com a frase: "Ela vai querer o livro de volta."Entre leitores, este tipo de empréstimo cria uma pequena obrigação. Ou se lê o livro e devolve-o, com comentários. Ou não o lê e fica com a obra, constrangido, com a promessa implícita de que será devidamente apreciada em algum momento futuro. O tempo passa. O livro fica. Você sabe como é.Mas entre uma vitória e outra do Corinthians, semana passada, acabei folheando A Causa das Coisas. São crônicas. Li uma, depois outra e quando dei por mim estava fisgado que nem lambari. Passei a levar o livro dentro do ônibus na ida ao trabalho pela manhã. Para não marcar as páginas - afinal o livro não é meu -, grudo post-its amarelinhos nas passagens mais brilhantes. Isto, descobri, chama um pouco de atenção entre os outros passageiros. Eles passaram a me olhar com um misto de curiosidade e desconfiança. Evitavam sentar do meu lado.O que tanto me atraiu em Miguel Esteves Cardoso, desta vez, é sua brasilidade. É modo de dizer. Porque quase todas as crônicas de A Causa das Coisas são voltadas para a alma e o jeito do português. MEC escreve com humor, goza seus conterrâneos sempre que pode, mas há, também, uma dose boa de carinho. O curioso é que, em muitos momentos, poderia estar falando do Brasil. Quando discute, por exemplo, a questão dos beijinhos. "Onze anos depois , o beijinho-a-solo está praticamente consolidado. Já ninguém estranha sequer a assimetria. Quando muito, instala-se a incerteza debilitante (?será que vai dar um, será que vai dar dois??) que nos deixa de cara à banda, absurdos e confusos, como convém aos sinistros planos dos agitadores. Hoje, apenas alguns resistentes heroicos continuam a dar e a exigir o beijinho que falta e que lhes é devido."Há também a discussão do uso particular do cinto de segurança, que me lembra os motoristas de táxi brasileiros: "O que geralmente se faz, para produzir a desejada ilusão óptica na Polícia, é deitá-lo casualmente por sobre o ombro, em jeito de estola ?punk?, ao som agradável do tilintar matinal das fivelas. Se alguém chega a constranger-se num cinto, aterroriza automaticamente os passageiros, que legitimamente passam a suspeitar que o condutor está a antecipar um desastre terrível a qualquer momento, temendo entretanto que ele seja da natureza de um repentino despenhamento no rio Tejo."Ao avançar pelas crônicas, cheguei a uma tese provisória: a de que Portugal e Brasil são semelhantes, com a diferença básica de que o lugar do passado histórico, lá, é ocupado, cá, pelo futuro promissor. A respeito da precariedade da sinalização do trânsito escreve Miguel Esteves Cardoso: "Não havia semáforos para o caminho marítimo para a Índia e os portugueses, sempre conscientes do exemplo da História, continuam a guiar-se pelas estrelas..."É uma tese historiográfica discutível, esta minha. Verei o que diz dela o professor na próxima caminhada.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.