A diferença de dar rosto ao inimigo

Richard Jenkins fala de intolerância e Oscar, a propósito de O Visitante

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2009 | 00h00

Em Paris, em janeiro, durante os Encontros do Cinema Francês, o ator, cantor e compositor Patrick Bruehl, entrevistado pelo Estado, não precisou pensar quando a pergunta foi - qual o melhor filme que você viu ultimamente? Sua resposta veio rápida - The Visitor, de Tom McCarthy. Na terça-feira, também entrevistada pelo Estado, a diretora Helena Solberg, de outro belo filme que estreia hoje - o documentário Palavra (En)Cantada -, revelou-se admiradora do filme que McCarthy, que está sendo lançado no Brasil como O Visitante. "É muito bom." Todos elogiam O Visitante. É um grande filme de um diretor ainda pouco conhecido - fez somente The Station Agent -, mas cuja carreira como ator coadjuvante é extensa. Veja o trailer de O Visitante O próprio ator principal de O Visitante, Richard Jenkins, indicado para o Oscar pelo papel - e não haveria do que reclamar se ele, em vez de Sean Penn (por Milk - A Voz da Igualdade ), tivesse empalmado a estatueta da Academia de Hollywood -, é outro veterano coadjuvante que nunca precisou de mais do que poucos minutos na tela para provar a extensão do seu talento. Aqui, ele faz o protagonista e você vai agradecer a McCarthy por ter tido a perspicácia de perceber que Jenkins tinha temperamento para o papel do alienado que rompe seu isolamento e vira participante num mundo hostil. "Conhecia Tom, mas era uma relação meio formal, sem muita camaradagem. Um dia, estávamos no mesmo hotel, ele me convidou para uma refeição, para me mostrar um projeto. Conversamos durante duas horas e Tom ficou convencido de que eu poderia ser o ator que buscava. Eu me convenci mais ainda de que era um papel que gostaria de fazer."O Visitante é uma raridade - um filme sobre relações que se constitui num dos retratos mais contundentes da paranoia nos EUA, após o 11 de Setembro. Steven Spielberg já fizera uma trilogia, também sobre o 11 de Setembro e sem se referir uma única vez ao ataque às torres gêmeas em O Terminal, Guerra dos Mundos e Munique. Mas O Visitante é diferente. "Tom fez um filme sobre pessoas, e isso faz toda a diferença. Não pensava, especificamente, nesse aspecto quase documental que o filme tem sobre o que ocorreu no nosso país. Meu foco era meu personagem, esse homem que parece desinteressado de tudo e todos, que segue empurrado pela vida e, de repente, precisa tomar partido. Mas Tom sempre soube o que estava fazendo", diz Richard Jenkins.O protagonista de O Visitante é um viúvo que se envolve com esse imigrante sírio. O cara está ilegal nos EUA, com uma namorada africana, também ilegal. Um incidente no metrô o leva a ser preso. "A força de O Visitante está em dar um rosto a tantas histórias que ouvimos. O inimigo que tememos pode ser uma pessoa comum, gente como a gente. O rosto que humaniza nos confronta com nossa responsabilidade." A atriz palestina Hiam Abbass faz a mãe síria. "Sou casado há 40 anos e vivo muito feliz, mas me apaixonei por Hiam. Ela é a mulher mais bela e talentosa do mundo", diz Jenkins (leia entrevista ao lado). A chave de seu personagem é o piano, que ele não consegue tocar, no começo, e a percussão, que vira a expressão de sua revolta, no desfecho. Tímido, Jenkins confessa que nunca teve expectativa de ganhar o Oscar. "Minha mulher foi muito franca comigo. Disse que eu poderia passar por isso como uma provação ou desfrutar, porque poderia ser bom. Resolvi desfrutar e foi maravilhoso. Colegas de escola, a primeira namorada, gente que não via há séculos, gente que nem conhecia. Todos foram muito carinhosos. O Oscar é muitas vezes discutido e contestado, mas existe muita gente talentosa em Hollywood. Ser uma delas, e tenho de agradecer a Tom (McCarthy), é estimulante." Serviço O Visitante (The Visitor, EUA/2007, 104 min.) - Drama. Direção de Thomas McCarthy. Censura: 16 anos. Cotação: Ótimo

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