A descoberta da falta de controle

Quem se Lembra de David Foenkinos? mostra relação angustiada de um escritor com sua arte e o amor

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

01 de agosto de 2009 | 00h00

O livro Quem se Lembra de David Foenkinos? é o tour de force de um escritor que, ao se pretender deus, se descobriu tão falho quanto um ser humano qualquer. Romance de David Foenkinos, autor francês de 35 anos, ele narra, sem pudor autobiográfico, as angústias de um quarentão com o fazer literário e com o impacto de sua obra nos leitores. Paralelamente, relata o naufrágio do casamento desse ficcionista. Nenhuma ordem se apresenta satisfatória para organizar o seu caos existencial. Resta-lhe apenas um consolo, a descoberta de algo tão singelo quanto fundamental: nem os escritores têm controle sobre o mundo por eles criado. São deuses, mas imperfeitos.Como Foenkinos se angustia até fazer essa descoberta! Tem de enfrentar o passado, ao qual se apega para compensar o desconforto do presente. As memórias são importantes para os criadores. No caso de Foenkinos, porém, elas se tornaram tirânicas, infecundas - não permitem que realize um novo romance e um novo amor. "Hesitar é o que eu faço de melhor", anota.O narrador em primeira pessoa realiza uma associação curiosa: para ele, desejo sexual e criatividade literária são dependentes. Se o seu casamento estivesse bem, a ideia genial para um livro seria inevitável consequência. No pior dos mundos, se a obra fosse friamente recebida, o ficcionista teria o amor da companheira para aliviá-lo. Mas ele não receberá a admiração da mulher e a do leitor, pois a inspiração não lhe ocorre.Dividido em cinco capítulos e traduzido por Rejane Janowitzer, Quem se Lembra de David Foenkinos? apresenta um escritor que, ao investigar a própria mediocridade, se recompensa com os frutos cômicos da autocrítica. Marcado pela fina ironia, o romance é o testemunho de um homem que dá o braço a torcer. Em vez de impor uma ordem a todo custo, ele aceita que talvez seja no irracional que deva procurar as razões do seu declínio. Percebe o ato criativo como descontrole da vontade. Foenkinos, o narrador, se asfixia quando enfrenta os elementos imprevisíveis da vida. Foenkinos, o autor, pertence a uma geração de ficcionistas franceses que rejeitaram a narração impessoal e racionalista do nouveau roman.Antes de achar a causa da falta de ar criativo, ele vê a mulher, Laurence, ir embora com um amante. Mostra-se dependente em excesso da ex-mulher. Mesmo admitindo que já não ama Laurence, o escritor ainda precisa sentir-se amado por ela. No entanto, sua esposa pouco entendeu a condição especial do artista, aventureiro de si mesmo, um investigador dos próprios conflitos; fez um juízo pragmático da atividade nada pragmática do marido. Depois da separação amorosa, entra em cena uma questão central para o narrador: no mais da vezes, sua razão de viver se pauta pela necessidade de ser desejado. Ele vive em função do desejo alheio. Não sabe ser sozinho, embora a solidão seja uma das exigências ferozes do ofício literário. Seu projeto afunda a toda velocidade.A compensação para o desprezo dos leitores, após o protagonista ter publicado O Potencial Erótico de Minha Mulher, romance de estreia e de sucesso, vem com Caroline. Mulher mais jovem que ele conhece numa palestra deprimente, ela o faz redescobrir os prazeres do sexo. O problema com ser desejado está resolvido, mas isso não resolve a sua vida. O protagonista consegue, sem querer, afastar Caroline.Para se recuperar dos insucessos, aplica-se um remédio: viajar da França à Suíça, "meu país culto", onde sonha morar. Dentro do trem, na viagem de volta a Paris, ao avistar uma desconhecida, recebe a visita da ideia extraordinária. Logo sobrevém o desastre: ele a esquece.Decide ir a um médico. Na consulta, o ficcionista recebe o seguinte conselho: para recordar o lampejo genial, é preciso reconstituir a cena inspiradora do trem. O narrador terá de procurar aquela mulher. Ele se lança, com paixão, a esse disparate e encontra a musa desconhecida, uma suíça chamada Alice, com a qual inicia um relacionamento.Estabelecido em Genebra, Foenkinos trabalha para o pai da companheira, dono de um banco que mantém negócios delicados com uma instituição dinamarquesa. Certo dia, as duas empresas se desentendem. Se alguém soubesse falar dinamarquês, a desinteligência se dissolveria. E não é que David Foenkinos sabia a tal língua, aprendida por amor a uma mulher? Após sanar o conflito, ele se sente querido por todos à sua volta.Ao encadear o enredo com absurdos, o autor pode ser acusado de inverossimilhança. Mas a vida, segundo este romance, ordena-se de modo improvável, por isso ela é uma aventura. Ao aceitar que a existência rejeita até o enquadramento ficcional, Foenkinos descobre por que é escritor. Sua história reproduz essa constatação, devastadora para alguns, afrodisíaca para outros.

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