A depravação nossa de cada dia

Náusea e ausência de perspectivas de uma sociedade próspera são o tema pouco palatável de Desvario, de David Grossman

Luis S. Krausz, O Estadao de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 00h00

Desvario, livro do israelense David Grossman que acaba de chegar ao leitor de língua portuguesa, é, na verdade, dois livros: o primeiro, Desvario, foi concluído em 2002, e o segundo, No corpo, Eu Entendo, data do ano anterior. Embora constituam unidades narrativas totalmente independentes, há entre os dois uma proximidade temática que justifica essa publicação conjunta, já que ambos tratam da desorientação psíquica e, sobretudo, amorosa, numa sociedade secular, de características modernas, organizada em torno dos parâmetros ocidentais, neoliberais, isto é, da ausência de parâmetros estáveis.O motivo pelo qual o livro mais recente aparece em primeiro lugar nessa dobradinha, muito bem traduzida para o português por George Schlesinger, é que a segunda parte parece anunciar uma resposta para a perplexidade deixada pela primeira - uma resposta que, no entanto, se revela tão ilusória e frágil quanto os expedientes e falsidades aos quais recorrem Saul e Elisheva, os desvairados protagonistas do primeiro livro, para se arrastarem por suas vidas.Os laços que unem esses dois personagens, um casal sem filhos, sustentam-se só graças a um ingrediente incomum: o amante que Elisheva visita, religiosamente, em todos os dias de sua vida, e de cuja existência Saul finge não saber, embora na verdade seja inteiramente obcecado por esse outro homem de sua mulher. Descentrados, erotômanos, embotados pelas pequenas armadilhas do dia-a-dia, ambos parecem nutrir-se da perversidade, o motor de suas vidas psíquicas e sentimentais, e a sombra de suas vidas aparentemente tão normais. A intensidade de sentimentos, o envolvimento passional, enfim, a sensação tão preciosa de estar vivo apenas parece possível a Saul e Elisheva graças a esse bizarro arranjo e Grossman perscruta a estranha mente, as fantasias e o cinismo auto-indulgente desses personagens que se nutrem desse bizarro imbróglio sentimental, num retrato pouco otimista da consciência moderna.Ao leitor que, envolvido com os sofrimentos de Saul e Elisheva, se pergunta por que, afinal, eles não buscam ajuda, Grossman oferece uma espécie de resposta - ainda que pouco consoladora - em No Corpo, Eu Entendo, a segunda parte do livro. Narrativa construída sobre uma dupla perspectiva, em que a protagonista, Nilli, professora de ioga à beira da morte, se encontra com sua filha, Rotem, escritora que justamente lê para ela uma novela em que retrata um episódio crucial na trajetória da mãe, esse livro tem como tema central o socorro espiritual a que se recorre, cada vez mais, no Ocidente: as tradições espirituais da Índia. O texto, deve-se dizer, é muito mais envolvente e mais bem construído do que o primeiro, e o autor retrata, com desenvoltura e intimidade, os princípios e a filosofia da ioga, por meio dessa personagem, Nilli, que passa uma semana dando aulas num resort à beira do Mar Morto, freqüentado por grupos de trabalhadores relativamente prósperos, mas absolutamente ignorantes em todos os sentidos.Grossman exibe empatia visceral com essa personagem, uma mulher corajosa, que percorreu ashrams na Índia e absorveu os ensinamentos de numerosos gurus, mas que vê a sua fé e a sua crença, incorporadas por meio de longos anos de práticas de ioga e de meditação, gradativamente demolidas pela marcha tenaz e constante de uma sociedade que a empurra, cada vez mais, para uma posição de marginalidade e alienação. E as conquistas psíquicas e espirituais de Nilli, seus valores humanos genuínos e sua pureza conquistada a duras penas vão aos poucos sucumbindo à depravação e à crueldade que a rodeiam por todos os lados, e que fecham o cerco sobre ela, numa Paixão que tem como ápice o reencontro com a filha, no leito de morte.A demolição da humanidade e da bondade de Nilli, o desencantamento que a realidade "objetiva" lhe impõe, e o seu mergulho inescapável no turbilhão cruel da vida política e econômica, sem qualquer perspectiva de salvação, fazem deste um livro perturbador, desalentador e amargo.A desconstrução das raízes metafísicas de uma sociedade, assim, é o tema que perpassa as duas partes desse Desvario que, como tal, se insere numa longa tradição da literatura judaica - uma literatura que, convém lembrar, tem como um de seus temas centrais, desde sempre, os vínculos e a desvinculação com a ética e com a transcendência. Luis S. Krausz, doutor em Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo, é autor, entre outros de As Musas: Poesia e Divindade na Grécia Arcaica (Edusp, 2007)

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