A democracia na cova dos leões

Em Leões e Cordeiros, Robert Redford discute a política bélica dos Estados Unidos e pergunta: os fins justificam os meios?

Flávia Guerra, O Estadao de S.Paulo

09 de novembro de 2007 | 00h00

''''Sou contra todas as guerras que nunca resolveram nada no mundo. E disso sabem muito bem os que as declaram do alto de seu cinismo'''', declarou com seu ar pacífico o ator Tom Cruise aos jornalistas que o interrogavam após a sessão de seu mais novo filme, no qual atua e também é produtor, há duas semanas, no Festival de Cinema de Roma. Lions for Lambs, Leões e Cordeiros, poderia também se chamar Lobo em Pele de Cordeiro. Talvez seria mais adequado. Difícil descobrir no atual cenário geopolítico quem são os leões e quem são os cordeiros. Veja o trailer do filme Leões e Cordeiros O filme integrou a mostra Première, que concentra o desfile de celebridades hollywoodianas na Festa de Roma, mas, por incrível que pareça, a estrela de Cruise e as fofocas sobre sua vida pessoal não chamaram mais atenção do que a sua tentativa de professar um discurso pacifista diametralmente oposto ao modo como os EUA vêm se posicionando em conflitos no Oriente Médio. Na trama, Cruise é determinado e ambicioso senador norte-americano que almeja chegar à presidência do país e, à moda maquiavélica, acredita piamente que os fins justificam os meios. Seu métodos, no entanto, vêm se chocar às convicções da jornalista Meryl Streep, a quem ele oferece uma entrevista exclusiva. Entre discussões sobre o patriotismo e as ideologias, Cruise declara: ''''Na guerra, não se vence com diplomacia. E as informações que circulam também são responsáveis pelas perdas humanas que ocorrem em um conflito.''''O tal embate, neste caso, é a ocupação do Afeganistão pelas tropas americanas. Enquanto Cruise e Streep discutem em Washington, dois soldados estão feridos em uma das altas e gélidas montanhas afegãs. Paralelamente, em uma universidade californiana, um velho e idealista professor (Redford) e seu pupilo (Andrew Garfield) discutem sobre ''''o quanto pode ser o momento de partir para a ação corpo-a-corpo em vez de mudar o mundo com palavras''''.Cenário complexo de um longa, que chega para completar o mosaico de filmes que vêm ora corroborar ora questionar a política externa e as reações dos EUA aos ataques de 11 de setembro. ''''Gostaria que este filme fizesse as pessoas pensarem. Não tomamos posição, tentamos fazer com que quem assiste a esta história se coloque no lugar dos protagonistas. Como cada um agiria nesta situação'''', contrabalançou o diretor Robert Redford, uma das poucas tábuas de salvação no mar de mediocridade de Hollywood.Redford conseguiu fazer de seu filme o melhor do cinemão sério, aquele que faz a platéia pensar, mas não deixa de ser entretenimento. ''''O senador republicano acredita nas suas idéias. Pensa que seu país, a máxima potência mundial, foi humilhada e, para recuperar a confiança do povo, é preciso criar uma nova estratégia bélica, sem riscos de derrota'''', completa o diretor.Nobre e original, ma non troppo. Apesar de toda a lucidez, Redford não nos revela mais que Redacted, de Brian De Palma, que recebeu o Leão de Prata em Veneza. Palma, este sim, choca a platéia pela crueza, e veracidade, com que revela as entrelinhas de um país democrático onde as informações circulam livremente, ma non troppo. ''''Esta é uma guerra odiada por muitos de nós americanos, registrada e divulgada com muita parcialidade e filtragem de informações, que chegam incompleta aos cidadãos'''', confirmam Redford e Cruise.Ainda que ficção, Leões e Cordeiros pode despertar uma ponta de indignação em uma população cada vez mais adepta da tal pílula azul (lembre-se de Matrix)? ''''Não sei. Vamos descobrir quando estrear. Mas temas como estes têm de ser discutidos'''', disse Cruise ao Estado. O longa estréia hoje também nos EUA. E Cruise e Redford finalmente poderão saber se os americanos continuam preferindo tomar a pílula azul. Ou se estão dispostos a engolir, ainda que a seco, a pílula vermelha.

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