A delirante provocação de Dario Fo

Fica até domingo Um Dia (Quase) Igual aos Outros, escrita com Franca Rame

Crítica Jefferson Del Rios, O Estadao de S.Paulo

03 de abril de 2009 | 00h00

A despedida de um suicida tem sempre algo de sinistro. Em determinada circunstância faz história, como no caso da Carta Testamento de Getúlio Vargas, em 1954, e as proclamações finais dos presidentes chilenos José Manuel Balmaceda (1886-91) e Salvador Allende (1973). É, também, um repositório de dados psicanalíticos; e, surpreendentemente, pode ter algo de tragicomédia, como Nelson Rodrigues demonstrou em Toda Nudez Será Castigada.Os italianos Dario Fo e Franca Rame, no entanto, tomaram o assunto para uma delirante provocação teatral chamada Uma Giornata Qualunque - aqui traduzida para Um Dia (Quase Igual) aos Outros. Neste enredo, uma mulher resolve deixar ao marido não a velha carta folhetinesca, mas um vídeo antes de cometer o que a crônica policial antiga definia com "tresloucado gesto".A descontrolada senhora arma-se de uma parafernália eletrônica para registrar em imagens uma lista de cobranças. Evidentemente, sendo Fo e Rame, um casal de artistas críticos, nada vai dar certo. Sobrará, isto sim, uma saraivada de ironias para a paranoia contemporânea, expressa em hábitos de consumo, gestos sociais vazios, alienação, enfim. Os autores recuperam os versos do malicioso samba Jornal da Morte, de Miguel Gustavo: "Tresloucada, seminua/ Jogou-se do oitavo andar/ Porque o noivo não comprava/ Maconha pra ela fumar."Nossa suicida se mete numa filmagem complicada enquanto atende a telefonemas.Vai-se divertir. Nesse "dia quase igual", tudo conspira para a quase vítima ser ridicularizada pelo seu despautério. Chegam telefonemas carregados de cotidiano externo normal e imprevistos esdrúxulos para que ela se sinta risível em seus pequenos problemas. Para arrematar o caos, não faltará um assalto absurdo.A que, afinal leva tudo isso? À banalidade de uma vida sem projeto existencial. A peça é, por esse viés, sutilmente filosófica, freudiana e politicamente anárquica. Típica provocação ideológica de autores que fazem a reinvenção da comédia popular italiana (a commédia dell?arte). Obra de difícil transposição geográfica e, sobretudo, cultural, porque construída com a linguagem italiana das ruas, repleta de invenções dialetais e gírias, tudo em um ritmo circense que pede intérpretes realmente afinados como esse estilo. Por sorte, a tradução e direção ficaram nas mãos de Neyde Veneziano, talvez a maior conhecedora brasileira do teatro da imponente atriz Franca Rama e seu marido, o múltiplo Dário Fo, autor, intérprete, agitador cultural e político (prêmio Nobel de Literatura de 1997). Especialista em teatro musical e de revista, ela conhece a dupla. Esteve com eles na Itália e realizou, na Unicamp, uma tese de doutorado sobre sua arte. Neyde é uma mulher apaixonada pelo que faz, perfeccionista, obstinada e sabe escolher com quem trabalhar. O resultado é uma "comédia para se pensar", absolutamente maluca, que confirma o sábio humorista Barão de Itararé (1895-1971): "O mundo está ficando louco, e eu também."O espetáculo é conduzido por Débora Duboc, uma das melhores atrizes da sua geração, aqui submetida a um teste bem duro: o de praticamente não ter parceiros com os quais contracenar (exceto a cena dos assaltantes). É quase doloroso para um intérprete, sozinho no palco, ter de se comunicar com vozes, imagens projetadas numa tela, efeitos que desviam sua energia e dão pouco em troca. O desafio é maior quando essas vozes e figuras virtuais são de artistas tarimbados em comédia (Cláudia Mello, Eliana Rocha, Marcelo Médici, Elias Andreatto e Grace Gianoukas, entre outros). Pois Débora se sai bem mesmo com a concorrência de vozes cômicas e aparelhos de som, imagem e luz (que podem até, eventualmente, falhar). Há ainda um solo bem engraçado dos meliantes interpretados pelos ótimos Thiago Adorno e Fernando Fecchio dentro do jargão "mano-periferia".Não é todo dia que se tem humor sustentado na inteligência. Satirizar fraquezas humanas é uma forma de ajudar os que se atrapalham na vida. Pode-se interpretar esse gesto como solidariedade. ServiçoUm Dia (Quase) Igual aos Outros. 70 min. 14 anos. CCBB. R. Álvares Penteado, 112, telefone 3113-3651. 6.ª e sáb., 19h30; dom., 18 h. R$ 15. Até domingo

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