A dança que escancarou um mundo de aparências

Ao narrar a trajetória do casal Luis e Ana, Céu de Tango, da argentina Elsa Osorio, examina a história de uma nação marcada pela violência, hipocrisia e esperança

Entrevista com

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

21 de janeiro de 2009 | 00h00

As línguas não se entendem, mas os corpos se comunicam. Apesar da história marcada pela violência, a Argentina é um país onde a esperança não se apagou. Segundo a escritora Elsa Osorio, o tango é a dança que melhor representa seus compatriotas. É singular porque nela há o abraço, apesar das diferenças sociais. Elsa é autora de Céu de Tango (406 págs., R$ 49,90), romance recém-lançado pela Planeta, com tradução de Sandra Martha Dolinsky.Ao falar sobre a relação de um casal - Luis e Ana - que se encontra numa casa de tango em Paris, Céu de Tango passa em revista 100 anos da história argentina. "Penso que as chaves do drama e da esperança argentinos estão na sua memória." Luis e Ana vêm de famílias dos extremos da escala social e vivem nos anos 2000, "quando tudo parecia perdido". Por ter nascido com a imigração, o tango ensinaria a aceitar as diferenças, das quais os argentinos podem extrair sua força hoje. Quando escreveu Céu de Tango - segundo romance lançado no Brasil, depois de Há Vinte Anos Luz -, ela não perdeu de vista uma ideia que povoa o imaginário argentino: aqueles que ousaram levar a vida como um tango vão para um paraíso onde dançam e amam. Leia trechos da entrevista a seguir.DA VIOLÊNCIA AO ABRAÇO"Quis falar de uma sociedade por meio da música que a representa: o tango. Uma dança singular, porque, à diferença de outras, se baila com os pares abraçados. O tango nasce com a imigração e funde as diferenças sociais em um abraço, constitutivo da nossa identidade. No entanto, a violência assola a nossa história. E o tango a acompanha. Ele passa a ser nostalgia e regressa com força nos anos prévios à grande crise. Isso não é à toa. O que pulsava ao ritmo do tango estourou nas ruas no fim de 2001. Os conflitos, a violência, as paixões e, ao mesmo tempo, a harmonia e a sensualidade de corpos abraçados são um ângulo interessante para ver o passado e o presente."UM PAÍS INVENTADO"Os argentinos gostam de pensar que são um invento, sonhado por alguém. Essa é uma maneira de deixar de pensar no porquê dos fracassos, apesar de tanta riqueza natural e humana. O argentino, talvez por suas origens, se percebe como um europeu que vive no Sul do continente americano. Acha que é rico, culto, especial, mas isso não impede que grande parte da população esteja abaixo da linha da pobreza."MORTOS QUE VIVEM NO TANGO"Aqueles que ousaram viver sua vida como um tanto, quando morrem, vão para um paraíso onde cantam, bailam, amam, coisas que não permiti aos personagens do meu romance. Existe essa tradição na literatura argentina, em Borges e Cortázar, por exemplo."UM MITO"O mito do tango encontra-se na sua origem proibida, na sua essência transgressora. Nos ambientes marginais, compadritos, crianças e mulheres de vida alegre se abraçavam. Com o tempo, porém, o tango teve de ser reconhecido nos grandes salões da França para poder entrar nos salões portenhos. Um personagem do meu romance diz: ?Aqueles traidores que me negavam em público depois de tanto me gozar privadamente.? Isso releva hipocrisia, sim, mas mostra o triunfo do prazer e a revolta contra as aparências e a resignação." SÉCULO 20"Me pareceu interessante evocar o início do século 20, tempo de riqueza no mais amplo sentido, quando havia um projeto de país, em meio à desesperança dos anos 2000, quando tudo parecia perdido. Penso que as chaves do drama e da esperança argentinos estão na sua memória."MENTIRAS VERDADEIRAS"Nas pequenas histórias se lê a História. Não sou uma historiadora, sou uma narradora. A literatura é um caminho transversal na História. O paradoxo é que uma série de mentiras, como é o caso da ficção, pode nos aproximar mais da verdade do que o testemunho histórico." UM ATO POLÍTICO"A literatura é um grande prazer, além de um trabalho. Não ignoro que a palavra pode ser uma arma de luta. Uma luta na qual sigo acreditando, apesar da água que correu sob a ponte, que é muita já, e não sem barro, pedras e sangue. Escrever é um ato político."

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