A cultura como antídoto para os conflitos

Itaú Cultural e AfroReggae propõem shows e seminários que apontam para a paz

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2021 | 00h00

Há dez anos, o compositor e pianista colombiano Cesar Lopez vem desenvolvendo trabalhos que atinjam em cheio os problemas sociais, com a tentativa de, pelo menos, amenizá-los. Ele fundou, ao lado de outros artistas, o grupo chamado EL Batallón Artístico de Reacción Inmediata, que funciona, segundo ele, sob os mesmos princípios da Cruz Vermelha.''''Nos apresentamos nos locais onde ocorrem as catástrofes'''', conta. Em 2003, criou a escopetarra: uma guitarra fabricada a partir de um fuzil AK-47, arma bastante comum entre os guerrilheiros de seu país. ''''Idealizei-a como um símbolo de paz e reconciliação.'''' O reconhecimento veio três anos depois, quando foi nomeado ''''mensageiro da não-violência'''' pela Organização das Nações Unidas (ONU). Kofi Annan, Manu Chao e Bob Geldof fazem parte da lista dos que adquiriram o instrumento.Lopez é apenas um dos notáveis participantes da 2ª edição do projeto Antídoto - Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, realização do Itaú Cultural em parceria com o Grupo Cultural AfroReggae, do Rio, que tem por objetivo apontar novos caminhos às comunidades que vivem em situações de risco. O colombiano apresenta-se hoje, na Sala Itaú Cultural, com o AfroReggae. No mesmo palco, hoje, também sobem Rappin'''' Hood, Paula Lima e Arlindo Cruz. A extensa programação, toda gratuita, vai até quarta-feira e destaca, além dos shows, debates que prometem tirar as idéias do papel.''''Um dos símbolos do Antídoto deste ano é a Gabriela Leite, criadora da grife Daspu e da ONG Davida. Um dos pontos que provavelmente ela deve discutir é sobre aquele caso da empregada que foi espancada porque achavam que ela era prostituta. Isso nos oferece uma dimensão muito simbólica de um dos mais fortes conflitos que existem no Brasil de hoje: o preconceito'''', sublinha Edson Natale, gerente do núcleo de música do Itaú Cultural e um dos coordenadores do Antídoto. A mesa-redonda em que Gabriela Leite participa ao lado da apresentadora Regina Casé, intitulada O Preconceito da Cultura Leva ao Conflito?, ocorre na terça-feira, às 19h30, e tem mediação do próprio Natale.No mesmo dia, às 16h30, a coordenadora do Teatro do Oprimido, Bárbara Santos, o ex-dono de um ponto de tráfico em Acari, no Rio, e atual agente de projetos do AfroReggae, Washington Rimas, e o antropólogo inglês Luke Dowdney, idealizador do projeto socioesportivo Luta pela Paz, que atua desde 2000 no Complexo da Maré, também no Rio, debatem suas experiências com o público. O músico MV Bill, um dos fundadores da Central Única de Favelas (Cufa), participa da mesa de abertura, às 16h30 da segunda-feira, e às 19h30, Hugo Acero, ex-secretário de Segurança e convivência da prefeitura de Bogotá, discute As Contradições dos Conflitos e da Cultura com o diretor regional do Sesc SP, Danilo Santos de Miranda. ''''Não somos ingênuos a ponto de achar que a cultura é o único antídoto para a solução dos problemas, mas sem dúvida é um deles'''', afirma Natale.

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