A crítica política de Todd Solondz

Em Life During Wartime, ele ataca a crença americana de que para ser feliz é fundamental ser famoso e bem-sucedido

Luiz Zanin Oricchio, VENEZA, O Estadao de S.Paulo

04 de setembro de 2009 | 00h00

Todd Solondz diz não saber exatamente por que retomou os personagens de Felicidade (Hapiness) alguns anos depois em Life During Wartime (A Vida Durante a Guerra), primeiro dos concorrentes norte-americanos ao Leão de Ouro. "Eu não costumo intelectualizar demais as coisas; quando comecei a escrever, vi que gostaria de explorar mais a vida desses seres, descobrir o que havia acontecido com eles, em que tinham mudado", disse.

E o que encontrou? As mesmas disfunções de sempre, o espectro da pedofilia rondando, o medo, as pequenas bobagens da vida cotidiana em seu país, que acabam por se tornar enormes problemas - exatamente porque as pessoas as têm como dogmas de fé. Por exemplo, a inabalável crença americana, agora já gentilmente distribuída pelo mundo, de que é fundamental ser famoso e bem-sucedido para ser feliz. Nesse sentido, o filme é crítico, abertamente: "É uma obra política evidente, triste e divertida ao mesmo tempo."

A trama - se o termo cabe, pois se trata de um caleidoscópio - se articula em torno de três irmãs, todas com problemas de relacionamento amoroso, filhos difíceis, casos de abuso sexual na família, e também pouco controle sobre suas fraquezas e ambições. "A questão, na vida social e familiar, é saber como perdoar e esquecer", acredita Solondz. Para acrescentar: "Isso só é possível quando se tem confiança. Mas como saber quando é possível confiar em alguém?", ele se pergunta. Por sorte, o filme é todo banhado de uma ironia às vezes desconcertante, que cria distanciamento e apimenta a ferramenta crítica. O riso é parte essencial da inteligência. Mesmo quando amargo.

De certa forma, essa questão rima, faz eco com a do outro concorrente norte-americano, The Road (A Estrada), de John Hillcoat, com Viggo Mortensen no papel principal. O ator faz o papel de um sobrevivente de misteriosa catástrofe que destruiu a civilização. Ele vaga com o filho em busca de comida e abrigo em uma paisagem desolada. O filme é adaptado da obra homônima de Cormac McCarthy. "Eu me comovi às lágrimas quando li o texto", conta Hillcoat, "e tive como ponto de honra preservar a essência do livro de Cormac."

Embora ambientado em clima pós-apocalíptico, o filme desloca a ênfase para o relacionamento entre pai e filho em uma situação-limite. Como os homens se transformam em bestas e comportam-se como o maior dos predadores, a primeira lição é desconfiar de todos. "A história se passa nesse embate entre o medo e a necessidade de finalmente confiar em alguém, mesmo que seja para sobreviver", diz. "E, não por acaso, esta é mais uma ocasião em que o filho ensina a lição ao pai", completa Viggo Mortensen. "No meio do caos, ele reacende a possibilidade de esperança."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.