Daniel Piza, E-mail: daniel.piza@grupoestado.com.br Site: www.danielpiza.com.br, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2009 | 00h00

Todos os homens agridem palavras diariamente, mas no solo dito gentil desta pátria elas jazem em quantidade cada vez maior. Veja o que aconteceu com "elite", originalmente concebida para designar aqueles que são os melhores no que fazem; como sempre lembra Sérgio Augusto, Pixinguinha era um homem de elite. Sob corruptelas como "zelite", ela se tornou sinônimo de "pessoas que discordam do povo e do governo que esse povo apoia". O elitista, que antes era apenas o esnobe que acha que pessoas comuns não alcançam obras de arte requintadas, passou a ser o vaidoso que ousa criticar quem faz sucesso. Num país onde humildade sempre implicou baixar a cabeça para o status quo, e não a simples consciência de que nada é definitivo, vemos apenas o golpe final sobre o conceito de que algumas pessoas têm mais capacidade do que as outras.Montaigne disse que a retórica "é uma ferramenta inventada para manipular e agitar uma multidão e um povo sem ordem, e é ferramenta que só se emprega em Estados doentes"; uma maquiagem feita para "abastardar os julgamentos", comovendo em vez de convencendo. O problema do Brasil não é a elite, mas o fato de que a classe dominante - grupo de pessoas que tiveram mais oportunidades e deveriam assumir mais responsabilidades - não seja uma. Nossa "elite" (entre aspas) é composta por sujeitos como esse Edmar Teixeira, que fez para sua família um castelo horrendo em Minas, sem declarar o valor e sem cumprir seus deveres, e que alegou o "vício insanável da amizade" para, sendo corregedor, não atuar como corregedor... Montaigne, que tanto escreveu sobre sua relação com De Boétie, também vivia num castelo. Mas jamais encadearia palavras que pusessem a amizade e a correção em campos opostos.Em muitas regiões do Brasil mal saímos, portanto, do século 16; mas, quando a revista The Economist descreveu como "semifeudal" a oligarquia brasileira representada por José Sarney, de novo presidente do Senado onde pratica retórica há cinco décadas (e ainda a leva para seus romances subamadianos), houve quem se queixasse. O clã Sarney pode estar em fase ruim em termos de cargos políticos em seu Estado, mas continua a mandar em boa parte dele como os senhores feudais mandavam, só que agora por meio não apenas da posse de terras, mas também de meios de comunicação. De FHC e Lula, porém, jamais se viu palavra ou atitude que contrariasse os interesses do nobre parlamentar, que outro dia se comparou favoravelmente a ACM por ter sido presidente da República - como se sua presidência causasse alguma nostalgia. Por falar em ACM, seu neto, do mesmo PFL (retoricamente renomeado DEM), é o substituto de Edmar como corregedor da Câmara. Me faltam palavras...Talvez tenha a ver com isso tudo a absoluta ausência de menções ao bicentenário de Abraham Lincoln nos jornais da quinta passada? Lincoln, afinal, disse nas poucas linhas do discurso de Gettysburg tudo que as milhares de páginas das Obras Completas de Sarney jamais dirão. Educação de qualidade, emprego decente e distribuição de terras foram os programas principais de sua presidência num país que vivia a sangreira da Guerra Civil. Suas falas recusaram a retórica, por concisas e consistentes. Eram o oposto dessa conversa fiada dos políticos brasileiros, esse barroquismo do nada, essa fileira de lugares-comuns e piadinhas paternalistas que ouvimos todo dia. Lincoln, por falar em maquiagem, jamais gastaria verbo para se referir ao batom de uma ministra, candidata plastificada a uma sucessão que não deveria ter começado; e jamais poria o povo contra a imprensa, à maneira de fascistas e populistas. De todas as palavras, a que ele mais prezava era liberdade.PEQUENO QUÍMICOUm exemplo de como Darwin também respeitava as palavras, na Viagem do Beagle, quando passa pela Patagônia, 29/1/1833:"De manhã cedo chegamos ao ponto onde o Canal Beagle se divide em dois braços; e seguimos para o do norte. O cenário aqui se torna ainda mais grandioso do que antes. As imponentes montanhas do lado norte compõem o eixo granítico ou a espinha dorsal do continente, e corajosamente se erguem até a altura de três ou quatro mil pés, com um pico ultrapassando os 6 mil pés. Eles são cobertos por um amplo manto de neve perpétua, e numerosas cascatas derramam suas águas, através das florestas, até o estreito canal abaixo. Em muitas partes, magníficas geleiras se estendem da cadeia montanhosa até a beira do mar. É quase impossível imaginar algo mais bonito do que o azul berilo dessas geleiras, e especialmente em contraste com o branco profundo da neve que se expande acima. Os fragmentos que caíram das geleiras para o mar flutuavam adiante, e o canal com seus icebergs se pareciam, à distância de uma milha, com uma miniatura do Polo Sul."CADERNOS DO CINEMAKate Winslet é uma atriz extraordinária, com poucos pares no momento. Em Razão e Sensibilidade, mostrou toda a ansiedade de sua personagem; em Hamlet, a fragilidade e depois o devaneio de Ofélia; em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, mudanças rápidas de estado de espírito. Agora está em dois filmes em cartaz, pelos quais ganhou Globos de Ouro, e novamente primorosa.Em O Leitor, de Stephen Daldry, ela faz uma alemã que se envolve com um garoto que lê clássicos para ela enquanto ela o inicia sexualmente. Mais tarde, saberemos que foi carcereira de campo de concentração e uma das responsáveis por deixar dezenas de mulheres e crianças morrerem num incêndio. O filme toca no assunto clássico, a responsabilidade desses "burocratas" que diziam cumprir ordens como se fossem meros inocentes úteis das autoridades, mas seu tema maior é como uma pessoa com sensibilidade estética pode ter compactuado com aquela brutalidade. O enredo tem uma solução que me parece demagógica - o motivo pelo qual ela assume a maior parcela de culpa -, mas a atriz dá uma veracidade incrível à personagem, ao mesmo tempo dura e emotiva, incapaz de expressar seus sentimentos de forma direta. Vai contra o clichê hollywoodiano do nazista que tortura suas vítimas ao som de Wagner.Em Foi Apenas Um Sonho, de Sam Mendes, ela e Leonardo DiCaprio fazem um casal sufocado pela vida provinciana de Connecticut, nos anos 50, e decidido a se mudar para Paris. Aos poucos vemos que ela está perdida, sem entender por que quer fugir tanto, e que ele na verdade quer aquela vidinha mesmo, na qual todos ao redor sabem o que faz e pensa. Mas olhamos para Kate Winslet o tempo todo: a maneira como trava o queixo no momento em que o marido explode; ou como sorri com seu sonho e ao mesmo tempo nos dá a sensação de que nunca vai virar realidade. O filme não tem muitas concessões - as palavras mais reais saem de um ex-interno psiquiátrico - até o momento em que, americanamente, o futuro se bifurca; é preciso tomar uma decisão definitiva. E então a mulher, que em momento nenhum atribui seu tédio à sociedade em que vive, é punida pela natureza. O que esses candidatos a "auteurs" americanos não entendem, ao contrário da nouvelle vague, é que o Diabo mora nos desfechos.UMA LÁGRIMABlossom Dearie, que morreu no sábado retrasado aos 82 anos, era um cult, uma cantora que tinha admiradores tão fiéis que alguns iam a Nova York apenas para vê-la se apresentar no Algonquin ou outro local de charme e bom gosto. Sua voz fina, de timbre quase infantil, era um instrumento de jazz, com habilidade enorme para lidar com os tempos das sílabas, num show de respiração e afinação, e não por acaso um de seus fãs se chama João Gilberto. Por sinal, ela gravou canções da bossa nova; sua versão de Wave, de Tom Jobim, é antológica. Sem ser uma das grandes, como Billie Holiday ou Ella Fitzgerald, ela dosava malícia e lirismo e criava um clima cool como poucas. Uma porção da sensibilidade moderna se foi com ela, e dificilmente será recuperada.POR QUE NÃO ME UFANOO brasileiro em geral não faz ideia do que seja crítica. Ok, se há críticos que acham que Josué Montello foi o maior romancista de seu tempo, para que servem? Mas me refiro ao espírito crítico, à liberdade iluminista de dizer o que se pensa sem que alguém venha dizer, em vez de discordar, que não se pode nem mesmo afirmar aquilo. No meu blog escrevi, por exemplo, que gosto muito de Carmen Miranda, de sua técnica vocal, mas apontei o exagero dos que dizem que ela foi "a maior artista brasileira". Sua voz tem um registro médio nem sempre agradável e sua brejeirice datou até certo ponto. Muitas das reações foram com o passionalismo esperado: como assim, falar mal de um mito, de um fenômeno? A cultura nacional do "você sabe com quem está falando?" também se aplica à estética, na versão "você sabe de quem está falando?". Aforismos sem juízoPaciência não é lentidão. Só os rápidos não se abalam com as mudanças. ''O problema do Brasil não é a elite, mas o fato de que a classe dominante não seja uma''''Fala de Lincoln era o oposto da conversa fiada dos políticos brasileiros, esse barroquismo do nada''

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