A civilização tropical como futuro do homem

Inteligência Brasileira, do filósofo alemão Max Bense, é debatido no Instituto Goethe

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

25 de junho de 2009 | 00h00

Nos anos 1960, mais do que nunca o Brasil fez por merecer o título de país do futuro. Ele representava, então, a exuberante "civilização tropical": a "essência em progresso" do homem. Esse era o juízo do filósofo alemão Max Bense em Inteligência Brasileira - Uma Reflexão Cartesiana (1965), traduzido por Tercio Redondo, pela primeira vez, para o português. Publicada pela Cosac Naify, a obra será debatida por Alexandre Wollner, Guilherme Wisnik e Geraldo Souza Dias no Instituto Goethe, às 19h30 de hoje.Ao visitar o território brasileiro entre 1961 e 1964, Bense concebeu esse ensaio, misto de tratado estético com relato de viagem, que vê o Brasil como a civilização capaz de renovar. "Seria a terceira alternativa num mundo dominado pela guerra fria", diz o arquiteto Geraldo Souza Dias. À diferença da Europa, não haveria o peso da consciência histórica na jovem nação, onde pulsa o "gesto criador" e não o contemplativo, onde "as relações econômicas não são as decisivas e sim as espirituais", onde a prática prevalece sobre a teoria.Quando chegou aqui, Max Bense (1910-1990), professor da Escola Superior de Forma, em Ulm, já tinha contato com a cultura brasileira, iniciado com uma carta enviada pelo concretista Haroldo de Campos. Bense visitou Brasília, cidade onde identificou o "espírito cartesiano", lógico e analítico, em contraponto ao Rio de Janeiro, de "espírito tropical", orgânico e vital.Max Bense interpreta o momento otimista que o País atravessava sob uma perspectiva positivista, e Brasília se transforma, assim, numa projeção de sua visão de mundo. Tanto que, em Inteligência Brasileira, ele cita o arquiteto Lucio Costa como o representante da clareza e do domínio sobre o espaço, enquanto ignora solenemente Oscar Niemeyer, encarnação do barroco, segundo Geraldo. As curvas são o símbolo da face sombria e inexplicável da cidade, notada pelo filósofo alemão, que reproduz em sua obra texto de Clarice Lispector sobre Brasília, da qual a escritora dizia sentir medo. Clarice é um dos intelectuais "progressistas" citados por Bense, que fala de João Guimarães Rosa, Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos, Bruno Giorgi, Alfredo Volpi, Lygia Clark, Lucio Costa. O fascínio de Bense pela cultura brasileira se traduziu na difusão na Europa da arte de Bruno Giorgi, Alfredo Volpi, Lygia Clark, Aloísio Guimarães, Mira Schendel, Maria Gianetti Torres, Gilda Azevedo, Thomaz Ianelli e Solange Magalhães. A interpretação de Bense, cujo pensamento estético vem de uma matriz semiológica, exibe os contrastes do Brasil, realidade desafiadora para sua perspectiva científica. As oposições - improvisação e projeto, alegria e melancolia, natureza e inteligência - são o tema central: da síntese delas resultaria a novidade. Ao publicar Inteligência Brasileira, Bense só não contava que a esperança seria soterrada com o golpe militar, em 1964.ServiçoInteligência Brasileira. De Max Bense. Cosac Naify. 120 págs. R$ 39. Instituto Goethe. R. Lisboa, 974, Pinheiros, 3296-7000. Hoje, 19h30, debate com Alexandre Wollner, Geraldo Souza Dias e Guilherme Wisnik

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