A cinefilia era quase um vício sexual

Agora, filmando de novo depois de 18 anos entre jornais, rádio e TV, a magia do cinema me voltou. Não falo do moderno e frenético show de cortes sem fim, de efeitos especiais em filmes sem roteiro, em manifestos de sangue e porrada. Tenho lembrado muito da utopia fílmica dos anos 50 e 60, alimentada pelos Cahiers du Cinema e pelos círculos de fumaça dos cigarros Gitanes sem filtro. O cinema era nossa grande esperança dentro da indústria cultural que ganhava o mundo. Achávamos que a arte poderia ser salva dentro da fábrica de biscoitos baratos que começava. Éramos religiosos da imagem.Tenho saudades da sala escura que tanto amávamos: do cinema-segredo, o cinema como punheta dos rapazes feios (o grande crítico Paulo Emílio escrevera: "Ia-se ao cinema como ao bordel - em busca de ilusão"). Saudades desse mundo preto e branco, entre fios de fumaça de cigarros franceses.Ahhh... como era bom esperar um filme do Fellini, a cada ano, e o novo Antonioni, e o novo Godard...Atualmente, a cinefilia soa quase como um vício sexual. Talvez tenha sido. Há um mundo secreto, próprio do cinema, que só alguns ainda conhecem. Hoje o cinema é nu. Está exposto nas lojas, feiras e bancas de jornais em forma de vídeo, está nos hotéis, está rodando bolsinha nas ruas. Cinema perdeu muito a "aura" culta. Além disso, o ritmo incessante que o clipe e a fome de mercado trouxeram nos privaram da contemplação reflexiva das imagens.Não sou um cinéfilo puro. Falta-me o gosto arquivista, o detalhe das fichas técnicas remotas, as fofocas de Hollywood. Mas tenho amigos que me humilham sobre cultura cinematográfica. Gente como Walter Lima Jr., Nildo Parente, Cacá Diegues, Francisco Ramalho. Às vezes, tento folgar com eles, mas, em geral, danço...Cinéfilo mesmo era o escritor Manuel Puig.Li, outro dia, que Puig estava morrendo em Cuernavaca, assistido por uma de suas "filhas" - Yasmim.Explico: Puig tinha duas "filhas" - uma bichinha era "filha" dele com Ali Khan (pois Puig se imaginava a Rita Hayworth) e a outra "filha" dele com Orson Welles.Yasmim chorava na beira do leito, achando que Puig já entrara em coma. Mas, com esperança, testou os sinais vitais de sua "mãe".Falou-lhe, baixinho no leito: "Mãe..., ontem eu vi Stella Dallas do King Vidor de novo... Chorei tanto..."Foi aí que a "mãe" Puig balbuciou do leito: "É... a Barbara Stanwick está bem, mas o John Boles nunca me emocionou..." Yasmim, a biba cinéfila, caiu em prantos de felicidade e ligou para a "irmã": "Mamãe está viva!"Eis que, em busca dessa saudade, entrei num videoclube moderno. Nas estantes, carregadas de Mel Gibson, Van Dammes e Tom Cruise, brilhava num canto o Johnny Guitar do grande Nicholas Ray. "Está sendo alugado como água", me diz o videolocador, com uma cara que (oh, alegria!) me pareceu da "confraria secreta". Magro, fumando muito, barba por fazer e um olhar meio desesperado, tinha toda a pinta de cinéfilo."Esse Johnny Guitar é o filme que mais revela a estrutura íntima da grande narrativa americana", arrisquei, na busca de um confrade. O rapaz me olhou meio perplexo e botou o vídeo no saquinho de plástico.Eu continuei, doido por um papo: "Há filmes geniais que você não tem aí. Manda vir: Kiss me Deadly, do Aldrich, Naked Kiss, do Fuller, conhece? Não? É genial a abertura do filme, a mulher matando o cara com o salto do sapato, é do cacete!..."O rapaz me ouvia, com olhar triste, pálido. Animado, continuei: "Esses filmes mostram que só a ignorância total dos produtores americanos, sem nenhuma tradição teatral europeia ?culta?, podia criar uma linguagem nova, sem metáforas babacas. Enquanto a Europa fazia o cubismo, Hollywood inventava o cinema de ação... É por isso que acho que o cinema já nasceu pós-moderno... ah... ah..."O cara me olhava numa boa, assentindo com a cabeça... Fumava muito.Continuei: "O cineasta Sganzerla disse uma vez que, enquanto na literatura as personagens fugiam de um problema, no cinema elas fogem do décor. É isso aí. Cinema é o que se passa dentro do plano, a ação entre as pessoas e as coisas. Há uma ?fisicalidade? no cinema em que as coisas brilham antes do enredo. Há uma superficialidade ?profunda? no cinema básico que os grandes mestres sacaram. Nicholas Ray, neste filme, eleva a velha dualidade de bandidos e mocinhos a uma oposição quase shakespeariana. E sempre trabalhando com o óbvio. No cinema, o ?tipo? é mais profundo que a ?personagem?. Há filmes em que quanto mais óbvia a interpretação dos atores, mais funda vai sua significação."Notei que a palidez do videolocador aumentara, mas, como não havia outros clientes, ele teve de me encarar, impávido. Não tive pena, continuei a alugar o alugador de abacaxis."É interessante ver que no cinema europeu o ?sentido? da cena nunca está na cena mesma, mas em ?algo? que ela sugere, que estaria ?fora?, ?longe?, mais além. É a velha tradição metafórica. Só Godard, ensinado pelos americanos, acabou com essa frescura, se bem que fazendo uma paródia do óbvio, criando um metacinema. Nos grandes ?físicos? do cinema, como Nick Ray ou Fritz Lang ou na Caixa de Pandora do grande Pabst, a imagem não sugere nada ?fora?. Está tudo ?dentro? como nas pedras. Você viu Spies, do Lang, de 1919? É um exemplo dessa verdade."O rapaz olhava ansioso para a porta, em busca de salvação."No grande cinema não há lugar para alusão do sentido. Não há símbolos, há ícones. Não há ideal a atingir; há um ensinamento da nossa finitude. No verdadeiro cinema, meu companheiro, uma coisa não se soma à outra para formar uma terceira. Não há todo; só partes."Foi aí que me calei.O videolocador me olhou então com uma certa malignidade. Com um sorriso cruel, puxou dois vídeos novos. "Leva estes aqui: Comando Delta 3 e Robocop 7 - A Vingança - algo assim." Ele também estava vingado.Saí com meu Johnny Guitar no saquinho, mas com a fome de cinéfilo saciada.

, O Estadao de S.Paulo

30 de junho de 2009 | 00h00

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