A cachorra milionária

Ao chegar do trabalho na noite de terça-feira passada, encontrei a casa às escuras. Esquecera eu de pagar a conta de luz. Quer dizer, há uma certa polêmica a respeito de quem deveria tê-la pagado. Mas não vou entrar no mérito dessa questão. Deixemos para lá.Fui pegar o lap top. Teria umas duas horas de bateria, calculei. Sou um late adopter, demoro para adotar tecnologias novas. Mas ando gamado no wireless, que liga o computador à internet sem fio em qualquer ponto da casa. Leio deitado na cama, no café da manhã, no sofá, diante da televisão. Esqueci, duh, que sem energia o tal do wireless não funciona.Meu filho caçula Samuel, de 5 anos, reagiu com sabedoria à falta de videogame e dormiu. Tentei fazer o mesmo, mas não consegui. Minha mulher, Luli, saiu. Na ausência de energia elétrica, o jeito era ler à luz de vela grudada na tampa de uma lata de leite condensado. Mas estava sem livro. Depois de andar pela casa, achei uma pilha de revistas americanas do ano passado, de antes da era Obama. Deixara de lê-las porque pareciam datadas depois da eleição do novo presidente. Seriam perfeitas agora para me ajudar a pegar no sono.Escolhi uma New Yorker, a do dia 29 de setembro. Fui fisgado por uma reportagem sobre a dona da cadeia de hotéis Helmsley, Leona Helmsley. Ao morrer, ela deixou 12 milhões de dólares de herança para sua cadela, com o nome auspicioso de Trouble (Encrenca).Consigo entender a vontade de deixar dinheiro para garantir o bem-estar de um animal doméstico. As pessoas se apegam aos seus cachorros, afinal. Mas 12 milhões de dólares? Como iria gastá-los a pequena Trouble? O que faz uma cachorra com uma fortuna dessas? Viaja? Deve comer só picanha, pensei, ali no escuro.Explica o artigo que a prática de deixar heranças para cachorros é cada vez mais comum nos Estados Unidos. "Há uma rede de advogados e ativistas de direitos dos animais", diz, que se dedica à causa. Trabalham para diminuir as distinções legais entre humanos e bichos e permitir que estes últimos consigam herdar e gastar dinheiro.Além dos 12 milhões da Trouble, Leona deixou uns 8 bilhões, sua fortuna, para fundações dedicadas a cachorros em geral. Para dois de seus quatro netos, não deixou nada. Eles protestaram. Fiquei em dúvida por quem torcer a essa altura do artigo. Parecia uma novela, daquelas em que só há vilões tentando levar vantagem. Mediante um processo judicial complexo, os netos conseguiram levar 4 milhões de dólares, um, e 2 milhões de dólares, o outro, daqueles 8 bilhões. São quantias razoáveis, mas somadas dão apenas a metade do que levou Trouble. Quanto mais lia, mais louca ficava a história. Comecei a desconfiar da minha capacidade de entender a sociedade americana.Comentei o caso no dia seguinte com o professor Antonio Pedro Tota, ao praticar pedestrianismo na Avenida Sumaré. Ele já o conhecia, da New Yorker mesmo, mas bom historiador que é, disse que não era nada de novo. "Monteiro Lobato fala muito disso no seu livro América." Fui procurar, depois, de curioso. E não é que o professor tem razão? Escreve Lobato, em 1931: "Fatos como estes se repetem na América todos os dias. Há sempre um cachorro a figurar nos testamentos, liberalmente dotado para que tenha em vida quantos ossos lhe saiba ao apetite e disponha de uma criatura humana que o lave, penteie e leve a passear nos parques pela coleira."Fiquei pensando se um cão rico seria mais feliz do que um pobre e se os cães milionários teriam perdido muito na última crise financeira. Investiam pesado em derivativos, será? Considerei a possibilidade de sugerir a pauta para algum amigo jornalista, mas aí imaginei como seria a conversa por telefone e resolvi ficar quieto.

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