A caçada dos sapos

O sapo pulava nos peixes de repente. Antes do golpe, disfarçava, ou assim me parecia. Fingia-se de morto. Ficava ali na água, quieto, paradão, só respirando, a cara contra a correnteza, cara de sapo, de quem não quer nada, de quem não está nem aí. E pimba. Dava um salto e catava um peixinho, espalhando os outros para todos os lados.Os peixinhos voltavam à antiga formação, ao cardume, sem maiores delongas. Li em algum lugar que a memória dos peixes agüenta dois ou três segundos de lembranças. O comportamento desses parecia confirmar a hipótese. Porque logo depois a cena se repetia. O sapo pulava, catava um peixe, espalhando os outros, que, a seguir, voltavam ao mesmo lugar, à mesma formação, menos um soldadinho aquático, vítima do anfíbio.Não era sempre o mesmo sapo. Dava para ver uns sete ou oito - um albino, inclusive - dali da pequena ponte de pedestres onde nos instalamos eu e meu filho caçula Samuel, de 4 anos. Isso em Picinguaba, no litoral norte, perto de Paraty. Meus dois filhos grandes, Lucas e Maria, estavam também. Mas queriam mais era conversar com os amigos no bar ao lado. Demonstravam pouco interesse em assistir ao ataque dos sapos.Samuel curtiu a caçada anfíbia, quase tanto quanto eu. Ficamos ali uns 20 minutos. Não sabia, confesso, que sapos comem peixes. ''''Olha este!'''', ''''Olhe aquele!'''', exclamávamos, apontando os dedos para os sapos. A mim parecia uma cena mitológica. Grega. Chinesa. Fenícia, sei lá. Entendi melhor o sentido da expressão ''''peixe pequeno''''. Picinguaba sempre me remete, de um jeito ou de outro, às origens da civilização.Logo depois, catamos meus outros filhos e minha mulher no bar, despedimos-nos dos amigos e começamos, todos os restantes, a subir a pé a ladeira de volta à pequena casa onde costumamos nos hospedar. Já era noite.Gosto disso em Picinguaba. Os automóveis ficam na praia, no nível do mar. Quem quiser subir o morro é obrigado a fazê-lo a pé. Tenho um lado luddite. Ou seja, antitecnológico. Não agüento muito carro. Acho que o plástico foi um erro histórico. Sou adepto do pedestrianismo. Vivo sem celular, acredite se quiser. Meu ''''ludditismo'''' é mais emocional do que coerente, reconheço. Amarro-me na internet, por exemplo.Esse lado luddite costuma aflorar na praia. Foi ele que me levou a perguntar ao Samuel:- Não foi legal ver a guerra dos sapos, Big Kahuna? -, que é como eu o chamo às vezes.- Foi legal, sim -, ponderou. Muito.- Foi mais legal do que a televisão, não foi? -, insisti.Baseei a pergunta na premissa de que a emoção de assistir a um acontecimento ao vivo supera a de qualquer reprodução na tela, de qualquer documentário. É como show de rock ou jogo de futebol: é melhor no estádio.Mas Samuel ficou quieto. Pensou um pouco. Subiu alguns degraus da ladeira e se saiu com esta: ''''É sim (melhor que a TV), mas não tão legal quanto o videogame.''''Tive que dar risada. E venho pensando nessa resposta há uns dois meses. No fundo, a posição do Samuel é parecida com a do Sócrates. O filósofo desconfiava dos livros por considerá-los inferiores à conversação. Esta é interativa, tal como os videogames. Não participamos da caçada dos sapos. Apenas assistimos ao show da natureza.Não se sabe o que Sócrates teria achado dos videogames. Mas não há dúvida de que seus filhos teriam amado.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.