A busca num mundo que se apaga

Amuleto, de Roberto Bolaño, é um monólogo dilacerante, mostrando-se como perigosíssimo instrumento de desestabilização

Wilson Bueno, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

Um novo título do "fenômeno" Roberto Bolaño (1953-2003) acaba de ser publicado entre nós - Amuleto -, uma espécie de "novela", isso, óbvio, se a ficção do inclassificável chileno pudesse ser contida em gêneros estanques, a exemplo dos engessados romances de baixa extração que pululam aqui ou alhures. A prosa de Bolaño, a qual, sobretudo o mundo acadêmico, em vão, tenta etiquetar, foge a todos os parâmetros, a todas as referências às quais se apegam scholars de vários naipes e calibres na obsessão doentia de nomear o inomeável."Autonomias" talvez fosse o mais razoável para qualificar a inquietação desse prosador chileno, criado no México, preso por Pinochet no golpe que derrubou Allende, em 1973, e autoexilado na Espanha até a sua prematura morte na fila de um transplante hepático, em Barcelona. E que nos últimos dez anos de vida trabalhou furiosamente deixando-nos algumas obras-primas da literatura contemporânea, com destaque para o volumoso Detetives Selvagens, já publicado no Brasil, e o catatau de mais de mil páginas - 2666, com previsão de lançamento, aqui, para 2010.Quem ainda, por essas desgraças da vida, não conhece a escrita febril de Roberto Bolaño, não espere por "realismos mágicos" e muito menos por babaquaras naturalismos urbano-esquemáticos da safra que ora se contrapõe aos já vetustos cultores da primeira vertente onde pontificam desde o genial García Márquez até o insosso Carlos Fuentes; os rebeldes sem causa, da segunda vertente, esses não encontraram sequer um nome que os dignifique. Já com Bolaño, senhores, o buraco é mais embaixo.Ao aproximar a grande tradição literária hispânica, cuja fecunda gênese se dá com o bruxo Miguel de Cervantes Saavedra, às ditas vanguardas do rumoroso século passado, Bolaño alcança uma prosa originalíssima, o que não é, em absoluto, sinônimo de insolência ou arbitrariedade. A sua escrita é a de um vigor arrebatado e arrebatador, capaz de "transpor" a vida sob um domínio ficcional invejável.Não seria diferente com o recém-lançado Amuleto. Num enredo baseado em fatos, como a invasão da Universidade Nacional do México, pela polícia, em 1968, que culminou com a tristemente célebre "matanza de Tlatelolco", na qual mais de 300 pessoas pereceram, nem por isso o escritor chileno se deixa tomar por um historicismo que, de resto, detonaria a narrativa pela raiz.Ao contrário: Bolaño reconta, com as tintas da melhor literatura, a história da uruguaia Auxilio Lacouture - que alguns afirmam haver existido realmente, com o nome de Alcira -, que se autoproclamava, por conta e risco, a "mãe da poesia mexicana". Auxilio/Alcira passou 13 dias trancada no banheiro das mulheres da Faculdade de Filosofia e Letras da Unam, a assistir, pelo vitrô, aos embates entre polícia e estudantes. À água; e a papel higiênico para enganar a fome.Em Amuleto, num monólogo dilacerante, pontuado por corrosiva poesia, Auxilio, uma espécie de hippie, de cabelo louro cortado rente, a navalha, e saias curtas; desdentada por opção, relativamente mais velha que os (inúmeros) pupilos, apaixonada pela literatura grega, de Safos a Seferis, encarna assim como que a consciência (culposa) de "nuestra latino-america". Ela é a "mãe da poesia mexicana" e em torno dela orbitam as jovens vocações literárias, inclusive a de Arturito Belano, alter ego do autor. E não sem veladas razões, Auxilio tenta ocupar as horas do compulsório confinamento no banheiro a ler, por acaso, o poeta Pedro Garfias (1901-1967), revolucionário da Guerra Civil Espanhola, e que acabou seus dias em Monterrey.O fim dos "disturbadores" anos 60, em D.C. (como os mexicanos chamam a capital do país), se mistura aqui, pelo viés literário - e só por ele isso é possível -, aos ensandecidos entreveros dos republicanos da guerra civil de Espanha, outro momento dramático, não ignoremos, da história de uma derrota. Seja pelo contínuo transitar, ao longo da narrativa, do poeta Garfias; seja pela obsedante - e referencial - "presença" da lendária pintora catalã, a surrealista Remedios Varo, outra revolucionária de primeira hora, que buscou abrigo no México acompanhando Benjamin Péret.Trancada, literal e figurativamente, no banheiro do quarto andar da Unam, Auxilio Lacouture vai do delírio à mais chapada "realidade" do mesquinho cotidiano, pelas dobras e redobras da prosa/poesia de Roberto Bolaño. Constructos literários de uma beleza muita vez exasperante.É sempre admirável que a literatura se sirva da literatura, o que pode parecer um paradoxo, para "decifrar" o real. Para transtorná-lo, digamos.E nas pouco mais de 130 páginas dessa ficção incomum, o autor de Detetives Selvagens não poupa o leitor, a literatura, nem a si mesmo, para dar conta de uma supra ou infrarrealidade - devastadora em todos os sentidos. Esta que faz dos latino-americanos, e da arte latino-americana principalmente, alguma coisa en abîme, como costumam qualificar com lancinante precisão os franceses a esse risco de permanecer sempre à fímbria, sempre à beira do precipício.Para onde caminhamos? - se pergunta Auxilio Lacouture, ao fim de Amuleto. Para onde caminha a juventude latino-americana? Aquela dos anos 60 ou, por extensão, esta outra, agora, do tumultuário início deste infernal Terceiro Milênio. Ali, a utopia nas mãos, a banguela uruguaia, a se autointitular, sem pudor, a "mãe da poesia mexicana", teme o fosso do futuro posto que há de morar nele, no futuro, para sempre, o improvável. Revoluções, derruições, demolições - serão, claro, afinal, os "seus" rapazes, as primeiras buchas de canhão, de qualquer canhão, não importa a causa...Lacouture pressente isso, chaveada no banheiro feminino do quarto andar da Faculdade de Filosofia e Letras, naqueles últimos dias de setembro de 1968. Parece adivinhar que dali a algumas 24 horas, em 2 de outubro, serão mais de 300 mortos na praça, mortos por ensaiarem uma resistência. Pedem liberdade e justiça, ao que, sabemos, haverá sempre uma pronta resposta: a dos fuzis e a das metralhadoras dos poderosos de plantão. Resistir, contudo, é preciso."La loca" Auxilio, a despirocada "mãe da poesia mexicana", só quer agora, no entanto, uma saída. Nem que seja a destinada a escapar, sem alarde, do infecto banheiro onde há 13 dias escreve, lembra, lê, chora, geme e, mantida à água de torneira e papel higiênico, repassa feito uma Molly Bloom nativa, o sangue e as flores dos fracassos e epifanias latino-americanas."Assim, pois, os rapazes fantasmas cruzaram o vale e despencaram no abismo. Um trânsito breve."Trezentos mortos (oficiais!) na Praça de Tlatelolco. E a "mãe da poesia mexicana", pelo entreaberto vitrô do banheiro, desconfia da hora iguana: "Magra, enrugada, gravemente ferida, com a mente sangrando e os olhos cheios de lágrimas procurei os pássaros, como se os coitadinhos pudessem me ajudar naquela hora em que tudo no mundo se apagava."Amuleto, uma ficção "política", "engajada", como se dizia no ultrapassado século 20? Não, senhores, Amuleto atesta que a ficção em si, quando prosa in extremis, pode ser, ela mesma, um perigosíssimo instrumento de desestabilização. Ao contrário dos romancetes destinados a comover executivos enfastiados. Ou os jurados do prêmio da hora. Wilson Bueno, escritor, é autor, entre outros livros, de A Copista de KafkaAmuletoRoberto BolañoTradução de Eduardo BrandãoCia. das Letras, 136 págs., R$ 33

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