A busca da batida perfeita leva D2 à arte do barulho

A cada música composta, Marcelo foi pensando em quem poderia participar dela nesse álbum que tem gente ligada ao samba, mas não tem samba e sim rap e funk

Adriana Del Ré, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

Quando o rapper Marcelo D2 migrou para a gravadora EMI Music e anunciou o quarto CD-solo de estúdio, o pensamento vigente entre público e crítica foi o mesmo: "Lá vem mais um disco unindo rap com samba." As previsões não vingaram. No novo A Arte do Barulho, Marcelo mostra que fechou no CD anterior, Meu Samba É Assim, uma trilogia pessoal que tão bem fez à sua carreira-solo e da qual também fizeram parte Eu Tiro É Onda e À Procura da Batida Perfeita. Não que Marcelo esteja renegando sua relação com o samba. Mesmo porque uma vez amigo de sambista, sempre amigo de sambista. Ele até voltou a juntar os dois universos, mas, desta vez, não fez disso uma regra. "Vou pôr rap no samba, vou muito mais além/Eu vou no rock/Eu vou no funk/é hip-hop/atitude punk", canta ele justamente num samba, o Pode Acreditar (Meu Laiá Laiá), que tem participação especial de Seu Jorge. É o que o rapper faz. "Naqueles três discos, fui lá e usei o samba. Mas fiquei cansado também."Tanto não existe a tal regra que Marcelo reuniu uma nova geração de cantoras conhecida por sua proximidade com o samba, como Roberta Sá, Mariana Aydar e Thalma de Freitas, para que elas interpretassem outras coisas. "Nesse trabalho, tem bastante música com voz feminina. As meninas do samba estão ali, mas não estão cantando samba", avisa. Aliás, Marcelo abriu brecha em seu A Arte do Barulho para as mulheres avançarem. Tem a bela voz de Roberta Sá suavizando Minha Missão, Mariana Aydar no reforço do refrão de Fala Sério! e Thalma de Freitas engrossando o coro de Pode Acreditar (Meu Laiá Laiá) e Kush, além de fazer o contraponto feminino na canção Ela Disse e Oquêcêqué?. Luciana "Tuti" Berman aparece do vocal do rap meio charm Vem Comigo Que Eu Te Levo pro Céu (com direito até a sampler da Gaga de Ilhéus no final da história toda) enquanto Zuzuka Poderosa ajuda a fazer a ponte com o funk em Meu Tambor, numa participação virtual. "Zuzuka é minha amiga de My Space, nunca a vi pessoalmente. Mandei a música para ela, ela mandou de volta com a parte dela." A voz sampleada da cantora Cláudia, tirada de Deixa Eu Dizer (música de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, de 1973), funciona muito bem a serviço do rap Desabafo. "Todo mundo acreditou nessa música também, eles a liberaram. E olha que é difícil trabalhar com sampler no Brasil, por causa das famílias dos autores. Quase ninguém a conhecia." O rapper se cercou de mais convidados para endossar a vontade de ir muito além. Há tempos, ele e Marcos Valle vinham combinando algo juntos, mas nunca passou disso. "Marcos não tinha data, aí falei: ?ah é?? Peguei meu computador e fui até a casa dele gravar." Seu filho Stephan, de 17 anos, também colabora em algumas faixas. O adolescente, que já participou de outros trabalhos do pai e chegou a ficar em dúvida se seguiria carreira na música, assumiu que gosta disso mesmo. "Ele me mostrou umas bases, mas não aproveitei porque já era tarde. Ele aprendeu uma coisa: tem de trabalhar mais rápido." A cada música composta, Marcelo D2 foi pensando nas pessoas que poderiam participar dela. Queria que todos eles fizessem parte de seu manifesto, que conclama as pessoas a deixarem de viver a vida dos outros ou a se lamentarem, e fazerem a própria história. "É meu disco mais barulhento, fiquei com receio no início, mas o disco era isso mesmo", conta. "Não foi nada pensado, quando vi saiu o manifesto. Fui escrevendo assuntos do dia-a-dia, da TV, internet." O cronista do cotidiano também faz explanações dos próprios pensamentos nas letras, vide canções como a faixa-título. "Nunca fui desse de ficar passando pano/Existem as brigas boas/E aquela com Caetano/Polêmico não/Provocador por natureza", diz em certo momento da música.Ele, claro, se refere a uma picuinha que teve com Caetano Veloso. "A briga com Caetano foi coisa do passado. Sou um cara impulsivo pra caramba e depois mudo até minha opinião, é interessante estar aberto a mudanças."Mais do que a concretização da batida perfeita, A Arte do Barulho é mais um dos caminhos experimentados pelo rapper para tentar chegar até ela. "Esse disco faz parte da minha incessante busca por essa batida perfeita, que, para mim, é mais importante do que encontrá-la."

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