A blogueira que rachou a ilha de Fidel

A história da cubana Yoani Sánchez é contada pelo jornalista Sandro Vaia

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 00h00

Em muito pouco tempo a cubana Yoani Sánchez saltou do anonimato à condição de uma das pessoas mais conhecidas na rede mundial de computadores. Conseguiu o feito graças à mais democrática das ferramentas da web, um blog pessoal. Mas não pense que Yoani é apenas mais uma celebridade instantânea, que conseguiu fama com a prática comum da autoexposição. Nada disso. Ela é uma moça casada, mãe de um filho, mora em Havana e usa seu blog como ferramenta de resistência. Quem conta essa história é o jornalista Sandro Vaia, ex-diretor de Redação de O Estado de S. Paulo em seu livro A Ilha Roubada - Yoani, a Blogueira Que Abalou Cuba (Barcarolla, 180 págs., R$ 32). O lançamento será na terça-feira, das 18h30 às 21h30, na Livraria Cultura Loja de Artes no Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2.073, tel. 3170-4033). Para colher material para o livro, Sandro foi a Cuba, onde conversou não apenas com a blogueira, como conta em entrevista ao Estado: "Eu fiquei quase um mês só em Havana e falei com muitas pessoas comuns, do povo, convivi com várias delas, visitei casas de famílias, falei com o embaixador do Brasil, Bernardo Pericás, falei com empregados na área de serviços, funcionários do comércio,vendedores clandestinos de charutos, pintores e músicos de rua, donos de paladares, os restaurantes privados, mas não usei nenhum testemunho ou depoimento." A ideia é que a realidade cubana fornecesse apenas um pano de fundo. E que o foco fosse colocado na figura principal, a blogueira solitária.Yoani, motivo desse esforço de reportagem, mora num apartamento modesto em Centro Havana, bairro pobre da capital cubana. É lá que pensa e escreve esse blog (http://desdecuba.com/generaciony) de posts simples, breves, que falam do seu cotidiano na ilha de Fidel e Raúl. Ou seja, relata as dificuldades de sobreviver, de marcar uma consulta médica, deslocar-se pela cidade e pelo país. Tal simplicidade, direta e sem rodeios, atingiu o alvo de maneira extraordinária. Como diz Sandro Vaia, talvez Yoani seja hoje a blogueira mais conhecida do planeta. O blog começou de forma modesta em abril de 2007 e hoje alguns dos seus posts recebem até 6 mil comentários, o que deve ser recorde de popularidade. A média de comentários gira em torno de 2 mil por post. É o sonho de consumo de qualquer blogueiro. Mas colocar esse blog no ar é, literalmente, uma operação de guerra. Como na ilha a internet é controlada, Yoani não tem acesso ao próprio blog. Para postar, ela escreve o texto em um computador sem conexão com a internet. Salva o texto num disquete, vai até um hotel ou lan house e o envia por e-mail a amigos. Estes o traduzem em vários idiomas e mandam o texto para o servidor, hospedado fora de Cuba. São esses amigos internacionais que administram os comentários e mandam uma versão condensada para que Yoani os leia. Não adianta tentar acessar o blog Generación Y de qualquer posto público em Cuba. A resposta do computador é sempre a mesma: "Error." Mas, fora da ilha, pode-se lê-lo em nada menos que 17 idiomas fora o espanhol, incluídos o japonês, o chinês e o finlandês. Compreensivelmente, a maioria dos comentários vem dos Estados Unidos, onde é grande a comunidade cubana dissidente. Em seguida vem a Espanha.Apesar de todo o controle, a repercussão em Cuba também parece grande. O público-alvo está expresso no próprio nome do blog. Yoani, que tem 34 anos, explica em sua home page: Generación Y destina-se aos nascidos em Cuba nos anos 70 e 80 "marcados pelas escolas no campo, bonequinhas russas, saídas ilegais e a frustração". Com isso, tornou-se uma espécie de porta-voz dessa geração e fez do blog um ponto de encontro e resistência, embora não tenha perfil de dissidente clássica: "Yoani não teve formação ideológica, a resistência dela ao regime é dirigida à sua falta de funcionalidade, que se expressa nas carências da vida cotidiana, nas restrições à liberdade de expressão, na prevalência sufocante de um pensamento único. Se você perguntar se ela tem uma ideia clara do que colocar no lugar, eu diria que não", diz Sandro. Mas esse mal-estar parece generalizado, na impressão do repórter que é Sandro Vaia: "A impressão geral do contato com o povo cubano, que tem um espírito alegre e tolerante, é que ele está esperando que de repente alguma coisa boa vai acontecer e que a a vida deles vai melhorar. Eles têm um pensamento entre cético e mágico e são capazes de achar que o milagre pode vir até mesmo de Raúl Castro. Um motorista de táxi - sempre eles - me disse uma coisa que outras pessoas comuns me deram a entender com outras palavras: o regime está ?anquilosado? (atrofiado) e precisa de uma boa dose de ar fresco." Como discordar?

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