Galeria Raquel Arnaud
Galeria Raquel Arnaud

Esculturas de Elizabeth Jobim encontram as pinturas de Célia Euvaldo

Na mostra que vai até 27 de outubro na Galeria Raquel Arnaud, beleza e austeridade e ocupam o mesmo espaço

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2018 | 06h00

Raras vezes artistas realizaram simultaneamente trabalhos com conexão tão íntima quanto as pinturas da paulistana Célia Euvaldo e as esculturas da carioca Elizabeth Jobim, exibidas no mesmo espaço, a Galeria Raquel Arnaud, até 27 de outubro. Evocando o passado, ficou registrada na história uma exposição que o pintor Giorgio Morandi (1890-1964) fez ao lado do escultor Giacomo Manzù (1908-1991) em 1960. Dela emergiu uma insuspeitada relação entre as naturezas-mortas do primeiro e as figuras hieráticas em bronze do segundo, a ponto de a mostra ser recebida pelo então diretor do Colby Museum do Maine como um exemplo de “serena poética que transfigura o real”.

É possível concluir, como o professor James M. Carpenter, diretor do museu americano, morto em 1992, que, não sendo expressionistas ou abstratos, o mundo real fosse apenas um pretexto para Morandi usar objetos como modelos de suas composições em que importava menos a figura e mais sua relação com o espaço. Ou que Manzù simplificasse o corpo humano a ponto de ser visto como um esquema geométrico – e seus cardeais sentados são provas desse protominimalismo, como as austeras naturezas-mortas de Morandi.

A evocação de Morandi e dos minimalistas americanos, no caso de Elizabeth Jobim, vem a propósito de seus desenhos realizados nos anos 1990 em que a artista retomava o gênero natureza-morta em arranjos com pedras, representadas nessas obras (óleo sobre papel) por traços fluidos. Em sua exposição atual, ela retoma a questão em outro patamar. O que era apenas sugestão de volume vira, de fato, volume. São nove obras instaladas no piso superior da galeria em que as pedras desenhadas são substituídas por blocos de mármore ou cimento pigmentado em arranjos pós-minimalistas. Eles remetem tanto a Morandi como a Donald Judd, relacionando-se igualmente com Célia Euvaldo pelo contrastes cromáticos.

Como observa o crítico Ronaldo Brito no folder que acompanha sua exposição, as cores irrompem na tela “resolutas, instintivamente misturadas e diluídas”. Sem expor em São Paulo há oito anos, Célia Euvaldo tem exibido seu trabalho regularmente em outras capitais do País (Rio e Belo Horizonte em 2017) e participado de coletivas no exterior (na David Zwirner Gallery de Nova York, em 2016). Sua volta à terra natal traz essa novidade das cores intensas em substituição ao diálogo preto/branco característico do seu trabalho – a esse respeito, também a luz que emerge do preto, que o transmuta, aproxima sua pintura ao ‘outrenoir’ de Pierre Soulages. 

Soulages jamais encarou suas pinturas como monocromáticas, justamente pelo fato de a luz refletida pelo preto provocar uma disruptura na superfície uniforme. O mesmo se aplica às pinturas em preto e branco de Célia Euvaldo. Não se trata de ausência de cor, mas de usar essa superfície cromática para provocar certas emoções no espectador temperadas com intenso vigor – e essa é a palavra que define a relação entre suas pinturas e as esculturas de Elizabeth Jobim, conversa intermediada pela história, considerando a integridade de propósito das artistas e a relação respeitosa que mantêm com o passado.

As esculturas de Elizabeth Jobim, por exemplo, resumem uma trajetória que vai dos renascentistas italianos aos neoconcretos. O rosa pálido e híbrido das pinturas renascentistas é recriado em blocos de cimento pigmentado cujas formas geométricas interagem como nas esculturas construtivistas do mineiro Amilcar de Castro (1920-2002). Impossível também esquecer que a matriz desses blocos é o cubocor (1960) de Aluísio Carvão (1920-2001), uma experiência radical que teria ressonância na obra de Oiticica (em particular os bólides). Vale lembrar que Carvão, na época, foi muito criticado pelos concretistas pelo uso da cor – e essa rebeldia heterodoxa foi herdada por Elizabeth Jobim, demonstrada no amálgama entre escultura e pintura presente em seus blocos.

Curiosamente, as obras de Elizabeth Jobim e Célia Euvaldo acabam convergindo para o mesmo ponto por vias diversas. Os planos de cor de Célia são agora menos matéricos. A fluência gestual é evidente, a fatura é minuciosa, se impõe, como se espera de uma artista experiente. Nas esculturas de Elizabeth Jobim, vale mais uma vez lembrar que o uso do mármore, a exemplo de Sergio Camargo (1930-1990), deve muito às pesquisas dos renascentistas com a luz que o material reflete – e como o mármore reage à instabilidade da luz ao ser confrontado com o opaco bloco de cimento pigmentado, no caso das recentes obras de Jobim. Em ambas as exposições, a ausência de drama vai na direção oposta à mania contemporânea do espetáculo que domina o cenário das galerias e museus. São artistas que apostam na austeridade.

CÉLIA EUVALDO E ELIZABETH JOBIM 

Galeria Raquel Arnaud. R. Fidalga, 125, 3083-6322. 2ª/6ª, 10h/19h. Sáb., 12h/16h. Grátis. Até 27/10

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