A beldade que ousou provocar conservadores

Rajaa Alsanea mostrou em Vida Dupla como vivem os jovens na Arábia Saudita e foi ameaçada de morte

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

Quando o livro Vida Dupla: Um Romance sobre o Oriente Médio Hoje foi lançado lá fora, em 2005, sua autora, Rajaa Alsanea, uma endodontista nascida em Riad há 25 anos, passou a receber mensagens eletrônicas de fanáticos e ameaças de morte de fundamentalistas, inconformados com as ousadias de seu romance de estréia. Nele, Rajaa conta a história de quatro jovens muçulmanas da alta classe média na Arábia Saudita, que passariam por garotas normais no Ocidente, mas consideradas corrompidas na sociedade islâmica em que vive a autora. Baseada em histórias reais de colegas da universidade, ela fala de sexo antes do casamento, de garotas que se travestem para dirigir carros e personagens regados a álcool - uma ficção pop sobre a distância abissal entre as leis islâmicas e a influência dos hábitos ocidentais, muito bem recebida pela crítica estrangeira e que agora chega ao Brasil pela Nova Fronteira (tradução de Regina Lyra, 256 págs., R$ 34,90). Sobre o livro, Rajaa Alsanea falou ao Estado na entrevista a seguir.As garotas de seu livro são todas da alta classe média de Riad. Você acha que essa história poderia ter tomado outro rumo se elas fossem pobres? Garotas liberais têm mais direitos garantidos na Arábia saudita?Concordo com você. As garotas pobres de Riad têm ainda menos liberdade que as da alta classe média, mas creio que a preocupação delas de ganhar o pão de cada dia, nesse caso, vem antes da liberdade social.Além de você existem outros exemplos de mulheres muçulmanas que escreveram livros sobre a condição feminina nos países islâmicos e foram igualmente denunciadas por fundamentalistas religiosos como imorais. Como você reagiu às ameaças de morte desses conservadores?Acredito que nos países muçulmanos não temos ambiente para um diálogo frutífero. As diferentes facções defendem suas posições e esperam que os outros as sigam. O diálogo, nesse caso, poderia ajudar esses grupos a chegar a um consenso, levando ainda a um equilíbrio ideológico. Cartas odiosas e ameaças de morte como recebi são exemplos da falta de habilidade para conduzir esse diálogo. Não nascemos com essa capacidade e acredito que o processo educacional é a única saída, válida para todo o mundo.Alguns dos temas do livro lidam com proibições impostas pelo código islâmico, como o sexo antes do casamento. Você abordou esse assunto para provocar os conservadores ou para denunciar o fosso existente entre as modernas sociedades e a velha mentalidade? É possível forçar uma mudança na sociedade saudita?Mudar é o signo da vida. Só os mortos não mudam. A sociedade saudita mudou rapidamente nos últimos 50 anos em termos de infra-estrutura, telecomunicações, educação e saúde, mas nossas regras e valores permaneceram no passado. Vivemos um conflito entre a modernidade e os valores que queremos preservar e, naturalmente, ele se reflete na distância cada vez maior entre diferentes gerações. Os mais jovens acham cada vez mais difícil viver com seus avós. Portanto, está na hora de rever nossas tradições, sintonizando-as com a vida moderna, um desafio, se consideramos que devemos manter a identidade e o sabor da cultura saudita.O livro faz referências a programas de televisão e usa e-mails para contar essas histórias. Como explicar que o mundo saudita tenha aprendido a conviver com todo o aparato tecnológico, mas não aceite a modernidade do mundo ocidental?Acredito que seja mais fácil aceitar uma nova bugiganga como um telefone móvel que mudar regras e valores sociais, que dependem de uma mudança geracional. Isso explica provavelmente a resistência de certos setores da sociedade.A literatura árabe contemporânea não é muito conhecida no Ocidente, mas alguns autores já foram ou estão sendo publicados no Brasil, como Naguib Mahfouz, Tahar Ben Jelloun, Elias Khoury, Abdelrahman Munif e Ahdad Soueif. Quem você considera seus pares entre esses escritores e com o qual se identifica?Meu modelo é um escritor saudita ainda pouco conhecido no Ocidente, Ghazi Al-Gusaibi. Ele foi nosso embaixador no Reino Unido e é atualmente nosso ministro do Trabalho. Alguns de seus livros já chegaram a 25 edições. São obras cheias de coragem e reflexão sobre a cultura social da Arábia Saudita. MULHERES CONTRA UM MUNDO DOMINADO PELA INTOLERÂNCIAPACIFICADORAS: Rajaa Alsanea não é a primeira nem certamente a última escritora de língua árabe a lutar pelos direitos da mulher e a desafiar estruturas sociais tradicionais como as da cultura islâmica. Ela tem a seu lado veteranas como a libanesa Hannan al-Shaykh e a escritora e psiquiatra egípcia Nawal El Saadawi, fundadora e presidente da Associação de Solidariedade à Mulher Árabe (em 1982), que se apresentou há quatro anos como candidata à presidência do Egito. Outra veterana, a socióloga marroquina Fatema Mernisi, que muitas chamam de a Susan Sontag árabe, embora hoje distanciada do discurso feminista islâmico, ainda dá palestras na universidade de Rabat sobre o papel da mulher na sociedade islâmica. Ela é autora de Além do Véu, ensaio antropológico de 1975.A mais nova integrante da turma é a jordaniana Fadia Faqir, de quem a editora Agir lança Meu Nome é Salma ainda este mês. A garota do título engravida antes do casamento, é presa e tem sua filha recém-nascida violentamente arrancada de suas mãos. Esta é a terceira novela da autora, que vive na Inglaterra e é casada com um inglês. EssenciaisMuitos são os autores de língua árabe cuja leitura é altamente recomendável. Abaixo, o leitor encontra alguns deles, já traduzidos no Brasil ou em fase de lançamento. ALAA EL ASWANI: Um dentista que ficou famoso com O Edifício Egípcio. Nele, o autor conta histórias inventadas de personagens que moram num prédio histórico do Cairo, o Yacoubian.ELIAS KHOURI: Crítico, dramaturgo e novelista libanês, autor de A Porta do Sol. Estreou em 1975. Seu mais recente livro, Yalo, provocou escândalo por denunciar torturas nas prisões libanesas.TAHAR BEN JELLOUN: Escritor marroquino, professor de filosofia e autor de O Racismo Explicado à Minha Filha (1997) e O Último Amigo. Biógrafo de Giacometti. Premiado com o Goncourt. TAYEB SALIH: Há sete anos seu livro Tempo de Migrar para o Norte foi declarado a mais importante novela árabe do século 20. O escritor sudanês vive entre dois mundos, o árabe e o inglês. SONALLAH IBRAHIM: O escritor acima, chamado de "Kafka egípcio", retira suas histórias do noticiário de jornais. Preso nos anos 1960, ele recusou um valioso prêmio do governo de seu país.

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