A banda que separou corpo e mente

Assim o pesquisador Elijah Wald define a revolução dos Beatles, em livro polêmico que acaba de sair nos Estados Unidos

Lúcia Guimarães, O Estadao de S.Paulo

26 de junho de 2009 | 00h00

Nestes tempos de atenção escassa disputada em frases bombásticas, suspeito que o autor à minha frente, explicando pela enésima vez o título de seu livro, começa a se arrepender de não ter ficado apenas com o subtítulo - Uma História Alternativa da Música Popular Americana. Apesar de os Beatles serem tema do último capítulo, é difícil não questionar o título Como Os Beatles Destruíram o Rock?n?roll.Cáspite, Elijah Wald! Foi com a indignação de quem sempre esperava o dia 9 de outubro para despejar leite condensado sobre o bolo de aniversário de John Lennon que fiz a repórter calar a fã mirim que um dia eu fui.O novo livro do historiador Elijah Wald despertou reações variadas, nenhum tédio. Seu argumento é que a história da música popular, e da arte em geral, é monopolizada pelo gosto de críticos. No caso da música, a história oficial acaba relegando a notas de rodapé personagens importantes como Paul Whiteman, citado como influência por Duke Ellington e Louis Armstrong e, nos anos, 20, o mais bem sucedido band leader dos Estados Unidos.Wald aponta dois marcos em seu livro. O abandono da performance ao vivo pelos Beatles teria consolidado a gravação como referência primordial da música. E a evolução dos Beatles, da banda que tocava música dançável com influência negra e tinha uma base de fãs adolescentes, para uma banda de "artistas". As aspas não se destinam denegrir a qualidade do som de Sgt. Pepper?s Lonely Heart?s Club Band. A língua inglesa distingue artistic de arty: o segundo adjetivo sugere pretensão calculada. Wald acha que nós latinos somos abençoados com uma certa falta de puritanismo e isso faz com que "os mais intelectuais" dos compositores brasileiros criem música que não separa o corpo da mente - mas logo pede para não considerar o comentário uma simplificação da complexa tradição musical brasileira.Como o rock?n?roll foi destruído pelos Beatles?É uma ideia que não deve ser tomada literalmente porque o rock ainda está por aí. Até os Beatles aparecerem, a performance ao vivo era a principal parte da música. Os Beatles foram as primeiras grandes estrelas a simplesmente parar de se apresentar ao vivo e se tornaram músicos de estúdio. Isso causou duas grandes mudanças. Desde então, quando pensamos em música popular, pensamos em gravações. Quando os Beatles começaram, e falávamos de sua chegada aos Estados Unidos, pensávamos na famosa apresentação no Ed Sullivan Show e não num disco. Eles foram o último grupo musical importante a comprovar esse truísmo. Depois deles, a principal associação da música popular é com as gravações. Em segundo lugar, o contexto racial. Quando os Beatles chegaram aqui, a música americana estava no momento de maior integração racial de sua história. A música americana, como a brasileira, tinha comportado esse processo de interação entre a tradição africana e a europeia. No começo dos anos 60, pela primeira vez, havia uma interação mais igualitária entre as duas tradições. O pessoal da Motown, Ottis Redding, James Brown, eles eram programados em shows ao vivo e de TV e o público estava mais misto. De repente, acontece a invasão britânica. E a invasão simplesmente dividiu as plateias americanas entre os fãs do rock, que se tornou todo branco, e os fãs do soul, disco e hip hop, que viraram gêneros predominantemente negros.Mas se você leva em conta que grande parte da plateia do rap era branca e suburbana...Não desapareceu o público. É aí que faço a conexão com a gravação. Uma vez que a música popular passou a depender de gravação, era possível ser um tremendo fã de música negra sem nunca estar na presença de uma pessoa negra. Uma vez que tudo estava gravado, você ouvia o que quisesse sem estar na companhia especial de ninguém, fora do seu universo. E acho que foi um dos fatores na separação. Quando os Beatles começaram, eles tocavam gêneros negros e brancos. Depois deles, isso não foi mais necessário. Até os anos 50, todas as bandas tinham que tocar todo o espectro da música popular.Também cresci ouvindo os Beatles mas não vivi o contexto de segregação musical que você viveu.É verdade, mas vamos levar em conta também o fato de que o Brasil nunca fez a mesma separação . Os mais intelectuais dos grandes músicos brasileiros continuam a compor música que funciona num ambiente de dança. Os Beatles abandonaram o salão. E o rock também abandonou a dança, que ficou mais ligada a outros gêneros. Quando digo que os Beatles destruíram o rock, faço humor sobre o fato de que todos os grandes eventos acomodam ganhos e perdas. O lado vitorioso domina a narrativa e a gente para de pensar no que se perdeu. Eu não quero ser simplista, mas a ideia protestante de que a mente é virtuosa e o corpo, não, pode explicar boa parte do que estamos dizendo aqui. Quando dizem que os Beatles "elevaram" o rock, não se referem apenas à música mais inteligente, mas também à música menos física. E, para mim, este foi um grande racha.Hoje, com o iPod, a pessoa que houve a Beyoncé pode nunca ser exposta ao Rufus Wainright e vice-versa.Exatamente. Acabou o mainstream. Antes, não importava qual a sua preferência, era impossível evitar um repertório popular. A outra mudança é que o repertório de grandes compositores, como o Jobim, tinha interpretações variadas. Hoje, as músicas do Caetano Veloso são mais conhecidas como as músicas do Caetano, as gravações dele definem e memória do repertório. E isso é um fator importante para encolher o mercado; se uma canção existe principalmente no momento em que foi gravada e não em centenas de versões.Um dos contrapontos históricos do seu livro é sobre como a evolução da tecnologia foi afetando formatos e gêneros. O que a tecnologia digital está fazendo com a música?Todos têm me feito a mesma pergunta. Se há algo que você aprende, como historiador, é que a gente sempre tira conclusões erradas sobre o presente. Neste momento, eu suponho que sabemos menos sobre o estado da música popular do que em qualquer outro momento na história. A música escapuliu das grandes corporações. As vendas de discos não significam mais nada. Uma pessoa compra um CD e aí? Cem outras copiam? Ou serão mil pessoas, online? Ninguém sabe quem está comprando o que. O rádio perdeu influência, é ouvido principalmente no carro, nos Estados Unidos. As pessoas ouvem as suas playlists, não a lista da estação de rádio. Veja dois exemplos recentes que confirmam a minha ignorância. A música mexicana, poderosa nos Estados Unidos, é distribuída predominantemente por celulares. A maioria dos downloads de MP3 no país são de música mexicana, para consumidores que nem têm outro aparelho além do celular. Numa loja de discos, vejo uma seção inteira devotada a álbuns de videogames. Você compra o CD do Aerosmith como um original do jogo Rock Star. Então, quem sabe de fato o que está acontecendo? A ironia é que as corporações multinacionais continuam muito poderosas, mas os sistemas de distribuição mudaram demais. Não sei como está a audiência do YouTube comparada à audiência dos cinemas. E a tecnologia transforma todos em produtores de conteúdo. Uma coisa é certa. A música ao vivo continua perdendo terreno. É cada vez mais difícil arrancar gente de casa para ver qualquer coisa ao vivo.Uma vez o João Bosco lembrou que a música brasileira relevante da segunda metade do século 20 repousava numa escala de sucesso comercial que hoje seria impensável. Alguns dos nossos grandes compositores não teriam nem contrato com gravadora.Concordo, o universo dos números é outro. Mas é importante entender também o quanto as gravações adquiriram importância muito mais tarde. Até o começo dos anos 60, a maioria dos artistas ganhava dinheiro ao vivo. Os discos eram veículos promocionais. Os músicos não se ligavam tanto em royalties, até aparecerem os Beatles. Foi a outra mudança que eles trouxeram - a ideia de que podia se ganhar muito mais com as próprias composições. Os Beatles são o exemplo perfeito de uma banda que, por um momento reuniu os dois grupos de público e depois tomou outro caminho. E tomou, das adolescentes que gritavam, a música que tinham dado a elas. E não digo que isso é mau, é apenas diferente. Em nenhum momento considero que foi ruim os Beatles terem se tornado artistas. Só constato que isso removeu a música deles do lugar original.Você critica os historiadores que consideram, por exemplo, a Sarah Vaughn legítima mas não a imensamente popular Connie Francis. O que há de errado com isto?Não há nada errado em contar a história do que apreciamos. E é assim que a história do jazz e do rock é contada. Mas , se alguém quer entender o que aconteceu, não pode falar só do que aprecia , tem que falar do que não gosta. Os Beatles, o Elvis Presley, eles eram músicos profissionais trabalhando no mundo real. Eles gostavam de muita música que os críticos ainda detestam. Julgar a música deles pelo que combina com o gosto dos críticos é OK, mas se queremos entender a evolução da música temos de levar em conta mais do que o gosto dos críticos.

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