A atração de vencer novos desafios

Esse chavão do mundo corporativo serve de mote a Na das Cidades, de Brecht, na versão dirigida por Marcelo Fonseca

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

10 de setembro de 2009 | 00h00

Vencer novos desafios - a frase tornou-se chavão usado à exaustão no mundo corporativo. E é lembrada pelo diretor Marcelo Marcus Fonseca ao falar de sua motivação para levar ao palco a montagem de Na Selva das Cidades, de Bertolt Brecht, que estreia hoje na Funarte - que também deu apoio financeiro e suporte técnico. "Ter um espaço para ensaiar por três meses e com equipamento - refletores, som - é fundamental", diz Fonseca, também em cena integrando o elenco de 13 atores do espetáculo que tem trilha sonora executada ao vivo.

Na Selva das Cidades é uma das peças mais estranhas de Brecht. Nela dois homens se enfrentam num confronto sangrento de motivação absurda, quase incompreensível. O próprio autor, no prólogo, pede para o espectador não se perguntar pelos motivos, mas para prestar atenção nos atos.

"Acho que essa peça tem tudo a ver com o mundo que vivemos, mais ainda do que quando foi escrita. As pessoas vivem sendo pressionadas a atravessar barreiras, a se tornar "vencedoras", a disputar o seu lugar ao sol", diz Fonseca. "E querem "chegar lá", não importa quanto saiam machucadas ou machuquem aos outros. Numa inversão terrível de valores deixam de dar importância ao que realmente interessa seja nas relações pessoais, seja na atitude para com o mundo, cada vez mais regulado pelo financeiro."

A ação da peça, no original, se passa numa Chicago fictícia onde Garga, jovem imigrante que trabalha numa livraria, recebe um desafio no mínimo insólito: o malaio Schlink, controlador da prostituição e de tráfico, quer comprar sua opinião. Começa aí a disputa entre ambos que vai desagregar a família do jovem - pai, mãe e irmã - e provocar destruição ao seu redor.

Em sua versão, uma edição atualizada, Fonseca lança mão de frases que tomaram o noticiário nos últimos tempos, entre elas, uma "variação" do que foi dito por um suplente de senador - "à ética que for criada eu vou aderir". Fonseca ressalta que esse mote perpassa as relações na peça e também fora dela. "Se a violência estiver dentro do "combinado", então tudo bem?"No fim, acredita Fonseca, luta-se hoje em dia, o tempo todo, por objetivos tão sem sentido quanto à guerra em que se metem Garga (Fonseca) e Schlink (Rene Ramos). Liz Reis vive a irmã de Garga, vítima da violência desencadeada.

"Claro, queremos provocar reflexão, mas é teatro, ou seja, antes de tudo é diversão", diz Fonseca, que chamou atenção na cena paulistana por montagem transgressora de outro texto de Brecht, Baal, O Mito da Carne, na qual a cabeça do então presidente Fernando Henrique era devorada. Desta vez, o signo de rebeldia vem na forma de um poema, A Lenda do Soldado Morto, na voz de Wanderley Martins e musicado por João Urbílio, que valeu a Brecht o nome na lista negra de Hitler.

Serviço

Funarte - Sala Renée Gumiel (70 lug.). Alameda Nothmann, 1.058, Campos Elísios, telefone 3662-5177. 6.ª e sab., às 21h30; dom., às 20h30. R$ 10

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