A Árvore dos Desejos antecipa temas clássicos de Faulkner

Infantil rascunha assuntos, como religião e guerra, marcantes em títulos futuros

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

Em 1927, quando escreveu o livro infantil A Árvore dos Desejos (Cosac Naify, tradução de Leonardo Fróes, 56 páginas, R$ 42), o escritor americano William Faulkner ainda não existia para a literatura - seu currículo literário incluía apenas edições de poesia e o primeiro romance, Soldier?s Play. Mais alguns anos e Faulkner escreveria obras como O Som e a Fúria, Santuário e Absalão, Absalão, que se encontram entre a melhores produções do século passado.A Árvore dos Desejos surgiu, portanto, em um momento de transição, quando o escritor (que nasceu Falkner e, sem explicar, acrescentou o "u", detalhe que o diferenciou do avô, autor de novelas de amor e também William) voltara de uma breve temporada em Paris (onde deixou a barba crescer) e se preparava para se voltar para a ficção com força total.Faulkner adorava contar histórias para crianças e o livro foi escrito depois de demitido da agência de correios porque lia demais - ao deixar o emprego, fez sua famosa observação de não estar mais à disposição de todos que, naquela época de modestas tarifas postais, tivessem dois centavos na mão.A obra revela sua disposição de abraçar a literatura. "Trata-se de uma odisseia fabulosa: crianças encolhem, pôneis saem de uma sacola e, se alguém ?virar o travesseiro de lado antes de pegar no sono, tudo pode acontecer?", escreve o jovem autor Emilio Fraia, na introdução do volume brasileiro.A trama se passa no dia de aniversário da pequena Dulcie, surpreendida, ao acordar, por um misterioso garoto ruivo, Maurice. Ao comando dele, a menina se junta ao irmão caçula Dicky, à criada Alice e ao amigo George e todos saem em busca de uma árvore mágica.No caminho, o grupo vai aumentando com a adesão de um soldado desiludido com a guerra, com um toco de madeira falante e um doce e sensível velhinho, Egbert.Logo encontram uma árvore mas, segundo apuração de Egbert, não é infelizmente a dos desejos. Nesse momento, a história se desdobra em conflitos e situações de perigo. "Por baixo da narrativa, tipicamente de aventura, surge uma ferida: a ideia de que os desejos podem ser traiçoeiros e, no limite, causar o mal", observa Fraia.Para isso, também contribuem as ilustrações de Guazzelli, que reproduz paisagens abandonadas com um traço seco, semelhante à xilogravura. Embora se dirigisse às crianças, Faulkner já rascunhava o estilo que eternizaria sua obra posterior, na qual a vida desponta não só destituída de alegria ou paixão, como também nem mesmo é particularmente dolorida.Algumas passagens também antecipam o uso cruzado de temas como fé e ritos do cristianismo nos romances que viriam a ser escritos. E, em A Árvore dos Desejos, Faulkner faz ainda reflexões sutis sobre a guerra, condenando-a de forma veemente. "O antídoto para a ambição desmedida, aqui, está na renúncia e humildade, uma espécie de fé naquilo que habita a superfície do mundo, simbolizadas pela figura de São Francisco", nota Fraia.Nas obras de maior fôlego, o escritor dissecou a decadência da região sul dos Estados Unidos, livros ambientados no fictício condado de Yoknapatawpha de O Som e a Fúria. Faulkner recebeu o Prêmio Nobel em 1950 e passou a ser influência constante para uma série confessa de escritores. "O texto tenso e de fôlego, as frases como torrentes cheias de mistério e ambiguidade e a mistura de estilos, os intermináveis parágrafos ou borbotões, quando respiram bem e estão bem acabados, são a expressão máxima da prova narrativa", escreveu o espanhol Javier Marías.Com o infantil, a Cosac Naify lança novas edições revistas de Faulkner (Palmeiras Selvagens, Luz em Agosto e O Som e a Fúria) e prepara, para o segundo semestre, Absalão, Absalão. A ação implica também vitrines exclusivas na Livraria Cultura e debates no Rio e em São Paulo.

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