A arte sem fronteiras de Wenders

Diretor, que está no Brasil, se define como viajante profissional e explica por que não lê os críticos

Entrevista com

Luiz Carlos Merten, Porto Alegre, enviado especial, O Estadao de S.Paulo

20 de agosto de 2008 | 00h00

Wim Wenders ficou conhecido nos anos 80 como Sr. Cinema. Idolatrado pelo crítico francês Serge Daney, ele virou objeto de culto em todo o mundo, ganhou prêmios importantes - Palma de Ouro por Paris, Texas; prêmio de mise-en-scène em Cannes, por Asas do Desejo; Leão de Ouro, por O Estado das Coisas. Cineasta, fotógrafo, escritor, Wenders é capaz de surpreender os próprios admiradores. Numa entrevista realizada na tarde de segunda-feira, na capital gaúcha, ele definiu sua profissão - ?Viajante?. Um andarilho da sétima arte, para quem a estrada não é só metáfora da vida. Na sua grande fase, a obra de Wenders investiga culturas, constrói-se no deslocamento.O viajante revela outras surpresas - numa palestra realizada à noite, no Salão de Atos da UFRGS, Wenders diz que não é um intelectual e afirma que tudo o que aprendeu (e expressa) em seus filmes foi pela via da experiência, na estrada. Wenders veio ao Brasil para participar do evento Fronteiras do Pensamento, que já levou a Porto Alegre David Lynch e nos próximos meses trará também Philip Glass e Bob Wilson. Fronteiras do Pensamento privilegia, neste ano, a discussão sobre arte com autores fundamentais - cineastas, músicos, diretores de teatro. A palestra de Wenders deveria durar meia hora - pelo menos, foi o que ele próprio anunciou -, mas estendeu-se por quase uma. Com o título Cinema além das Fronteiras, fez uma espécie de súmula da trajetória de Wenders, sendo seguida pela projeção do curta The Invisible Crimes, que ele fez sobre a organização Médicos sem Fronteiras, denunciando o que a própria entidade considera a pior de todas as doenças africanas - os abusos contra mulheres. Houve também, mas relativamente curto - para a platéia de 600 pessoas -, um debate com o público.À tarde, Wenders explicou como e por que surgiu sua curiosidade pelo outro. Nascido em Dusseldorf, nos escombros da 2ª Guerra Mundial, ele disse que teve o grande choque aos 16/17 anos, ao assistir consecutivamente a filmes que o marcaram muito - Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea; La Hora de los Hornos, de Fernando Solanas e Octavio Getino; e Antônio das Mortes - o título internacional de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro -, de Glauber Rocha. Um filme cubano, um argentino e um brasileiro. Apesar das diferenças de formação e cultura, Wenders diz que esses foram o primeiros filmes a fazer sua cabeça. Nos 70, já diretor - e andarilho profissional -, ele fez outra descoberta. "Fazia filmes que os críticos definiam com três As - angst (angústia), alienação e América."O cinema norte-americano exerceu profunda influência sobre ele - John Ford, Anthony Mann, Nicholas Ray. Só depois ele descobriu Yasujiro Ozu e, mais tarde, ainda, Fritz Lang e Friedrich W. Murnau. Ao perceber que não poderia ser um cineasta norte-americano, ele assumiu que era ?um alemão romântico?. Foi a fase em que se liberou para fazer seus melhores filmes (e os mais famosos). Nunca houve um rompimento definitivo com a ?América?. O discurso de Wenders sobre o cinema além das fronteiras não se faz contra Hollywood, que domina os mercados de todo o mundo. Ele destaca a necessidade de solidariedade entre cinematografias e circuitos alternativos. Como tentou dar visibilidade aos crimes ?invisíveis? contra mulheres, acredita que seja necessário eliminar as fronteiras para circulação de filmes (e autores) que não são aqueles do mainstream hollywoodiano.Em 1989, como presidente do júri do Festival de Cannes identificou o futuro do cinema em sexo, mentiras e videotape e atribuiu - não só ele, claro - a Palma de Ouro para o filme de Steven Soderbergh. "Naquela época não existia a palavra ?digital?, mas o filme já apontava para as novas tecnologias." Ao contrário de Peter Greenaway, que participou no ano passado do mesmo evento em Porto Alegre, Wenders não acredita que o cinema esteja morto. "Peter é pessimista, eu sou mais otimista. Não estou dizendo que ele esteja errado. Gostaria que estivesse." Faz uma pausa e provoca risos da platéia - "Está, sim (errado)." No começo dos anos 80, Wenders admite que também chegou a pensar que o cinema não tinha futuro e fez Quarto 666. "Estava enganado. Ainda bem." O desenvolvimento do digital acaba com a película? Wenders espera que não. "Gosto (da película). Podem-se fazer coisas muito bonitas."Em Cannes, como presidente do júri, ele diz que teve uma das melhores férias de sua vida. "Só via filmes, não precisava dar entrevistas, aliás, não podia dar entrevistas." Daqui a pouco, menos de dez dias, Wenders estará presidindo o júri de Veneza. Irá premiar outro diretor estreante, como Soderbergh? Outro filme/arauto de novas tendências? "Não tenho nenhuma idéia pré-concebida. Só espero passar um período tão agradável quanto em Cannes." Boleiro doente - um dos filmes importantes de sua primeira fase chama-se A Solidão do Goleiro Diante do Pênalti -, Wenders foi surpreendido pela iniciativa da diretoria do Inter, que invadiu a coletiva para lhe dar uma camiseta do time gaúcho.O diretor torce, na Alemanha, para o Bayern de Munique, que tem camisas vermelhas como a do Inter. O marketing do ?colorado? funcionou. Wenders posou com a camisa na mão e até fez menção de vesti-la. O Sr. Cinema hoje é um autor em quem os críticos adoram bater. Seu filme mais recente, Palermo Shooting, foi espancado em Cannes, em maio. Wenders credita a reação ao fato de ele estar tratando de um tema tabu como a morte. Sua defesa - "Parei de ler as críticas. Quando são muito boas, convencem você de que é melhor do que talvez seja. Quando são ruins, fazem você sentir um lixo." Ele não lê, mas a mulher, Donata, que o acompanha na viagem, o informa de tudo. No Brasil, ele tem a vantagem de não falar nem ler português. "Só vou saber do teor das críticas se Walter as ler para mim." Walter Salles, outro andarilho, não é só um amigo. mas um autor a quem Wenders admira.

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