A arte que nasce dos escombros

Jean Ganem, que fez florir um lixão em Montreal, cria obra nas ruínas de favela

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

01 de abril de 2009 | 00h00

O artista francês Jean Paul Ganem usa como matéria-prima de sua arte a memória da transformação urbana. Com uma diferença: onde havia concreto, ruína ou dejeto, ele cultiva plantas, o suporte de sua visão artística. Por exemplo: no lugar onde a cidade de Montreal despejou seu lixo por 30 anos, ele ergueu a obra Jardin des Capteurs, uma colcha de flores que, vista do céu, providenciava um espetáculo geométrico colorido e intrigante. Também instalou obras - o "nicho" artístico em que se situa é chamado de land art ou earth art - nas imediações do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris e em Quebec, no Canadá, entre outros lugares.Agora, Jean Paul Ganem vai promover a primeira ação de land art no Brasil. O local escolhido foi o terreno de onde foram despejados os antigos moradores da Favela Aldeinha, na Ponte Julio Mesquita, Marginal do Tietê, em São Paulo. Trata-se de uma área de 20 mil metros quadrados, que o artista pretende transformar num gigantesco viveiro colorido de mudas de plantas, onde cada canteiro simbolizará cada casa de um antigo morador desalojado.Para escolher o local, ele percorreu regiões degradadas da cidade de motocicleta, ao lado de seu parceiro brasileiro na produção, Mozart Mesquita, que quebra as pedras no caminho - negociações com subprefeitura, levantamento de recursos, divulgação. Chegou a ir a Pirituba, em local indicado por Eduardo Jorge, militante das causas ambientais. Mas, quando passou pela Aldeinha, não teve a menor dúvida.Os habitantes, seus móveis e bens estavam espalhados pela avenida. Ao chegar, conta Jean Paul, sua impressão era que uma bomba havia destruído todo um bairro. "Não restavam mais do que as demarcações no chão das antigas casas", lembra. Com fotos, ele registrou esses "espaços inexistentes", e ali nasceu o conceito da obra. "Eu adoraria que os antigos habitantes, ao virem ver a obra, reencontrem de alguma modo sua casa e a de seus amigos e familiares."Ganem é um dos notáveis nomes da land art, que tem como expoentes artistas como o búlgaro Christo - por sinal, sua maior inspiração. "Quando adolescente, tive a chance de assistir à instalação de uma obra de Christo, a embalagem da Pont Neuf, em Paris. Voltei várias vezes, fascinado por ver de forma diferente uma paisagem que me era tão familiar", afirmou, em entrevista ao Estado."Para fazer minhas obras, minhas influências provêm sobretudo do espaço onde vai ser implantado o desenho. Os aspectos geográfico, sociológico, econômico, político e histórico vão me influenciar para realizá-lo. Eu procuro ser como uma esponja que faça com que meu desenho aproxime o mais possível os ambientes físico e humano."O francês conhece bem o terreno onde pisa: vem ao Brasil há 20 anos, e foi casado com uma brasileira. Por influência dos amigos brasileiros, tornou-se torcedor do Santos Futebol Clube. Em Paris, onde vive, frequentou na juventude a entourage de um mito das artes visuais, Jean Michel Basquiat, de quem foi amigo. Basquiat viveu meses em Paris por conta de uma exposição numa galeria, habitando um movimentado quarto de hotel, onde produzia suas obras e recebia amigos. Ficou fascinado pelo processo de Basquiat. "É para mim um dos grandes do século 20, pela liberdade de seu gesto e o fulgor de suas composições."O Parque Aldeinha, como está sendo chamada a obra que será instalada na alça inexistente da Ponte Julio Mesquita, já está em gestação e deve começar a criar forma na metade do ano. Terá desenhos com plantas dos dois lados do Rio Tietê. A Secretaria Municipal de Cultura vai promover extensa programação artística no local, que terá também um mirante para que o visitante possa apreciar a obra.

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