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A arte pop do pintor Wesley Duke Lee volta ao circuito com força

Morto em 2010, o artista, um dos principais representantes do movimento nos anos 1960, é revalorizado e ganha instituto

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

16 de dezembro de 2015 | 05h00

O nome do pintor Wesley Duke Lee (1931-2010), que volta ao circuito com uma exposição (A/Temporal) e o lançamento de um instituto com seu nome, aos poucos começa a cruzar a fronteira. Incluído na mostra coletiva The World Goes Pop, em exibição na Tate Modern de Londres até 24 de janeiro, Duke Lee está também em outra exposição – Opinião 65: 50 Anos Depois (até fevereiro, no MAM do Rio) – e, em maio do próximo ano, ganha uma retrospectiva na Fundação Edson Queiroz, em Fortaleza. Figura de proa nos anos 1960, em plena ebulição da arte pop, Wesley Duke Lee teve, na época, apoio de poderosos como o diretor-fundador do Masp, Pietro Maria Bardi, e do crítico Walter Zanini, tendo participando de bienais (em São Paulo e Veneza) e criado o histórico grupo Rex, ao lado de Geraldo de Barros e Nelson Leirner, grupo que depois recebeu a adesão de Baravelli, Fajardo e José Resende.

O Rex durou pouco menos de um ano, entre 1966 e 1967, mas deixou sua marca de irreverência e subversão em plena ditadura. Wesley Duke Lee, em particular, tinha ligação estreita com a nova figuração e a arte pop norte-americana, que influenciou toda uma geração de artistas brasileiros. Filho de um americano e de uma portuguesa, o pintor, de vocação cosmopolita, morou nos EUA nos anos 1950, passou uma longa temporada no Japão e viajou por diversos países europeus – na companhia de Karl Plattner, de quem foi assistente. Lá também estudou a obra de Egon Schiele, o que fica evidente quando se vê uma aquarela como Mulher Deitada (1972), uma das 34 obras que levam sua assinatura, realizadas entre 1958 e 2003, em exposição na mostra A/Temporal, na Galeria Ricardo Camargo.

Pioneiro na criação de instalações no Brasil, Wesley Duke Lee está representado na mostra da Tate Modern com uma peça exposta na Bienal de Veneza de 1966, Trapézio ou Uma Confissão, considerada a primeira obra ambiental realizada no País, hoje pertencente à coleção de Roger Wright (cedida em comodato à Pinacoteca do Estado). Na exposição organizada pelo marchand Ricardo Camargo, há também uma instalação, O/Limpo: Anima (1971), conjunto de objetos de papel machê, metal, tecido, madeira, plástico, ferro, palha, pedra, osso e um espelho em que o espectador vê si mesmo. A instalação é uma espécie de síntese da sua obra que, por não ter sido exposta na época, ganha outra leitura quando vista com quatro décadas de atraso (ela só foi mostrada uma vez, em sua retrospectiva de 1992, no Masp). 

Wesley Duke Lee exige do espectador um olhar erudito para decifrar a instalação, feita de analogias que recorrem a mitos gregos e referências de caráter autobiográfico. Sua rígida formação de desenhista está a serviço dessa construção, mas é na série O Triunfo de Maximiliano I (1986) que essa expressão toma vulto. Há na mostra exemplos das diversas fases dessa série, que começa em 1966 com interpretações das gravuras de Dürer e Burgkmair e segue pelos 20 anos seguintes, evoluindo de um trabalho de cunho histórico para uma obra de caráter sensual que buscava, segundo o autor, a “alma do mundo”.

Tantas referências mais atrapalharam do que ajudaram a carreira de Wesley. O marchand Ricardo Camargo, que prepara o catálogo raisonné do artista, justifica sua discreta presença no mercado como consequência de um preconceito contra a sua independência ideológica e artística, para não falar de sua erudição, mal interpretada como pedantismo. “Ele era apolítico numa época em que todos os artistas eram de esquerda, passou mais tempo fora do Brasil do que em sua terra e, para finalizar, não tinha pudor em produzir para publicidade”, diz.

O mundo de Wesley pode ser explorado de forma mais íntima quando o visitante da exposição entra na casa ao lado da galeria, hoje a sede do Instituto Wesley Duke Lee, organizado e mantido por sua sobrinha, Patrícia Lee, com a ajuda do marchand Ricardo Camargo, com quem é casada. Ela morava na Índia havia 15 anos quando o tio passou a sofrer do mal de Alzheimer, em 2007. “Foram três anos de sofrimento, mas eu acredito que teria sido pior se ele não tivesse passado esse estágio terminal em meio aos livros, aos discos e filmes que amava tanto”, conta Patrícia, que remontou no Jardim Paulistano a casa-ateliê do tio pintor.

Wesley morreu em fevereiro de 2010, já sem memória, “mas angustiado com o paradeiro e o destino das obras de que vagamente se lembrava”, segundo a especialista em sua obra, Cacilda Teixeira da Costa. Para um artista que passou pelas bienais de Tóquio e Veneza, além de ter exposto ao lado de dois ícones pop, Rauschenberg e Jasper Johns, no Guggenheim, perder-se na memória coletiva seria uma segunda morte. O instituto que leva o seu nome quer evitar esse esquecimento.

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