A arte inquietante de Macalé em sua real grandeza

Filme de Marco Abujamra tem exibições no festival In-Edit Brasil a partir de hoje, com show do compositor amanhã

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

26 de junho de 2009 | 00h00

Na primeira cena do documentário Jards Macalé - Um Morcego na Porta Principal, de Marco Abujamra, o personagem em questão aparece ameaçando processar os realizadores do filme caso não goste do resultado. "Pode ser uma catástrofe", diz Macalé, com o semblante sério. Medo de quê? "Que destruam tudo o que construí. A minha vida pessoal." Como tudo o que o compositor, cantor, violonista e ator engenhosamente construiu na carreira, a abertura é provocativa. Mas o espectador não precisa se sentir incomodado nem temer o que vem pela frente. "Aquilo é um número", diz Macalé em entrevista por telefone. "Foi uma brincadeira." Ele é amigo de Abujamra e do jornalista João Pimentel, que codirigiram o filme e realizaram as entrevistas. Veja trecho do filmeO resultado, afinal, é fiel ao que Macalé significa. "Eu, como não tenho papas na língua nem nada a esconder, acho que os tópicos que eles pegaram estão ali respondidos. Tanto por mim, quanto pelas pessoas que foram entrevistadas." O documentário terá a primeira sessão hoje no festival In-Edit Brasil. Amanhã, na Galeria Olido, a exibição será seguida de um show de Macalé, interpretando ao violão clássicos que aparecem no filme, como Vapor Barato, Movimento dos Barcos e Farinha do Desprezo, além de canções de seu álbum mais recente, Macao, de 2008.Um dos episódios mais relevantes da carreira de Macalé é o show Banquete dos Mendigos, que reuniu, além dele, Raul Seixas, Chico Buarque, Gal Costa, Luiz Melodia, MPB-4, Edu Lobo, Milton Nascimento, Jorge Mautner, Paulinho da Viola e outros, no MAM carioca. Era para ser um show em benefício próprio, já que Macalé se achava falido, mas acabou adquirindo proporções imprevistas.Associado à comemoração dos 25 anos da Declaração dos Direitos Humanos, tornou-se alvo da repressão pelo conteúdo "subversivo". "Não aconteceu nada no autobenefício, mas como ato político foi fundamental", conclui Macalé no filme. Realizado em 1973, o show histórico foi gravado, mas o disco duplo ao vivo só saiu em 1979, depois de liberado pela censura. Até hoje permanece inédito em CD, apesar de suas insistentes tentativas para relançá-lo.Gal Costa, uma de suas intérpretes mais marcantes, não aparece na tela, mas em compensação tem sua voz em off cantando lindamente Vapor Barato - em fusão com a leitura do Poema Jet Lagged, de e por Waly Salomão (1943-2003), parceiro de Macalé na canção. Mais emocionante é quando Abel Silva conta a história de quando Macalé também cismou que ia morrer, por volta dos dez anos da morte do poeta tropicalista Torquato Neto (1944-1972). Um telefonema de João Gilberto cantando longamente No Rancho Fundo (Ary Barroso/Lamartine Babo) ao violão para ele foi crucial naquele momento. "De certa forma ele me acalentou, me ninou. Eu fui viajando nessa história e voltando a mim mesmo", lembra agora Macalé, que mora "simbolicamente" num fim de mundo em Penedo. Nem tudo é tão dramático no filme nem na vida de Macalé. Autor de frases cortantes, ele também protagoniza cenas engraçadas, como a de uma ordem de prisão em Vitória depois de um show de Moreira da Silva (1902-2000), que ele conta em bate-papo com Jaguar.Diversos amigos e parceiros artísticos - como Nelson Pereira dos Santos (para quem fez "a melhor trilha sonora" que já teve, e também atuou em Amuleto de Ogum), Zé Celso Martinez Corrêa, Capinam, Abel Silva, Dori Caymmi, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Cafi, Chacal, Nelson Motta - avalizam a importância do criador inquieto, que agregou o cinema, o teatro e as artes plásticas a sua música.Além de depoimentos inéditos, Bethânia (outra intérprete fundamental do compositor, com quem dividiu o palco no show Opinião) aparece em imagens de arquivo ao lado de Caetano Veloso, no tempo em que ela morou na casa de Dona Lygia, mãe de Macalé. Com eles, Torquato, Norma Bengell, Rogério Duarte e outros, "a casa ficava em ebulição". "Acho que parte da Tropicália foi discutida ali", diz o músico.É claro que a pecha de "maldito", com que foi identificado na época, é assunto que ainda rende. "Maldito é a mãe", diz ele no filme. Além de "dialogar com a vanguarda" ele era um pessoa "tendo um comportamento possivelmente livre dentro daquela coisa horrorosa", que era a ditadura militar. A referência ao morcego do título do documentário vem da canção Gotham City, vaiadíssima num festival em 1969, uma metáfora do negror daqueles tempos.Dono de uma "habilidade musical rara" (para Luiz Melodia), com "desejo experimental" (Jorge Mautner), que "reúne com facilidade o popular e o contemporâneo" (Xico Chaves), é considerado por Zé Celso como "um semideus", um artista da magnitude "de uma Maria Callas, de um Oscar Niemeyer". Não é à toa que esses "marginais" se identificam com ele, na visão da arte como agente transformador. De real grandeza. ServiçoShow. Galeria Olido. Av.São João, 473, 3331-8399. Amanhã, 20h30. R$ 4 e R$ 2Filme. Hoje, 19h30, no CCJ. Amanhã, 19h30, na Galeria Olido. Quarta, 19 h, no CineSesc. Dia 4/7, 16 h, no MIS

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