''A arte é uma inutilidade indispensável''

Ganhador do Prêmio Velázquez, o brasileiro Cildo Meireles disse que a crise econômica logo vai atingir o mercado artístico

EFE, O Estadao de S.Paulo

10 de junho de 2008 | 00h00

A arte é sempre "uma espécie de inutilidade indispensável", decorrente daqueles que estão próximos da loucura e que têm força e coragem para transformar seu entorno, afirmou o artista brasileiro Cildo Meireles que, em Madri, receberia ontem à noite o Prêmio Velázquez de artes plásticas.Em entrevista coletiva, Meireles disse receber com "imensa honra" o prêmio que, também importante, se abre agora para outros países, em que não se fala espanhol.Artista multidisciplinar, ele é considerado referência na arte conceitual e postula um compromisso político ao criticar a natureza européia da arte moderna ocidental, buscando dar-lhe uma nova identidade.Meireles, que usa fotografia, instalação e pintura em seus trabalhos, admitiu que, embora considerado um artista conceitual, sua singularidade é sempre fronteiriça com o compromisso político, do qual não se pode fugir."Não se pode mais fazer planos. O maior deles é seguir vivo e trabalhando. É importante saber que não importa o que se está fazendo, pois, de alguma forma, já se está entrando na História", declarou.Seu parecer sobre a relação entre a crise econômica mundial e a arte é que, "se não se nota, logo acontecerá". "A crise nos envolve, mas é secundária: há coisas mais importantes, como a própria sobrevivência do planeta."Sobre o Brasil, Meireles comentou que educação, saúde e salários são prioritários antes da arte que, em seu país, responde à máxima "Cada um por si e Deus contra todos"."A arte é a arma para combater o poder?", perguntaram. "Não, isso é para trabalhos como o filme Encouraçado Potemkin. A forma de se opor ao poder seria algo muito mínimo, mas permanente. Não se pode ter a ilusão de uma revolução por meio da arte", respondeu.O prêmio, que pela última vez estará dotado em 90.450 (a partir do próximo ano, passará a 125 mil), inclui ainda a organização de uma exposição no museu Reina Sofía, que Meireles já negocia com seu diretor.Ainda que não tenha um compromisso firmado com a instituição espanhola, como a mostra a ser exibida, a partir de outubro, na Tate Modern de Londres, Cildo Meireles espera que a exposição no Reina Sofía ocorra o mais cedo possível. Sobre o compromisso com a Tate, ele disse, como já ironizou um amigo, que "será uma a menos, não uma a mais".Sobre sua tentativa, há anos, de ser escritor, Meireles se desculpou por seu "deslize". "Uma das razões que me levou às artes plásticas é poder me expressar por outro meio que não o da palavra", afirmou. "As palavras são implacáveis."

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