A arte de tocar e escutar a diferença

No palco ou na sociedade, diz Daniel Barenboim em seu novo livro, entender a dignidade do outro é fundamental

João Marcos Coelho, O Estadao de S.Paulo

10 de janeiro de 2009 | 00h00

Houve um deslumbramento geral com os concertos de Daniel Barenboim realizados na Sala São Paulo em 2008. Além de leituras maravilhosas das três últimas sinfonias de Bruckner, um novo Schoenberg parecia surgir de interpretações das Cinco Peças Op. 16 e das Variações Op. 31. Agora é possível entender melhor as razões que fazem de Barenboim, hoje com 66 anos, um músico extraordinário, tão arguto e refinado em suas interpretações quanto determinado em sua militância pelo entendimento permanente entre árabes e israelenses no Oriente Médio. É que acaba de ser publicado, em edição espanhola (Norma Editorial), seu novo livro, El Sonido Es Vida. El Poder de la Música.Das 200 páginas, 140 são dedicadas às conferências Norton, feitas em 2006 em Harvard. O restante distribui-se entre uma entrevista sobre Mozart e artigos recentes. As conferências constituem a parte mais ambiciosa - e talvez por isso mesmo é nelas que Barenboim sente falta da densidade teórica do intelectual palestino Edward Said (1935-2003), com quem fundou, em Weimar, a Orquestra Divã Ocidental Oriental. O discurso se torna mais veemente. Dá vontade de dizer: mais panfletário. Ou simplista. Soa meio forçado utilizar o modelo técnico da música como tábua de salvação para o conflito no Oriente Médio. Ele tenta articular conceitos filosóficos, de Aristóteles a Spinoza, e os aplica atabalhoadamente tanto à interpretação musical quanto à solução dos problemas políticos da humanidade.Mas, como estamos mais interessados em seus insights sobre a música, o livro vale muito a pena. "A arte de executar uma peça musical é a arte de tocar e escutar ao mesmo tempo." O segredo da interpretação diz, é que "cada vez que se executa uma peça deve-se fazê-lo com o frescor do primeiro encontro e a intensidade do último". Logo ele, um músico que grava tanto, ataca asperamente a gravação, pois "ela preserva o que não pode ser preservado". Ou seja, no concerto o espectador pratica uma escuta ativa; ao ouvir uma gravação, simplesmente ouve. A música transforma-se em papel de parede sonoro."Populismo não adianta", escreve. "Educação sim." Para escutar ativamente, não é necessário tocar um instrumento ou pesquisar tecnicidades - o ouvido é mais forte que o olho. "A educação do ouvido é talvez mais importante do que podemos imaginar, não só para o desenvolvimento de cada indivíduo, mas para o funcionamento da sociedade. A compreensão da música e a inteligência auditiva são áreas que amiúde estão separadas do resto da vida humana, relegadas à função de entretenimento. Porém, a capacidade de escutar várias vozes ao mesmo tempo captando a exposição de cada uma delas ou de recordar um tema que fez sua entrada antes de um longo processo de transformação - são qualidades que potencializam a compreensão. Quem sabe o efeito cumulativo destas habilidades e capacidades poderia formar seres humanos mais aptos a escutar e entender vários pontos de vista ao mesmo tempo, mais capazes de saber qual é seu lugar na sociedade e na história, e seres humanos com mais possibilidades de captar as semelhanças entre todas as pessoas do que as diferenças que as separam."Barenboim rejeita o conceito de interpretação musical, fala em"realização física da partitura". A tarefa do músico seria não expressar ou interpretar a música como tal, mas converter-se em parte dela. "Apenas o músico que pensa estrategicamente será capaz de comunicar a estrutura de uma peça musical para o ouvinte, e não simplesmente os distintos estados de alma que ela contém." Insurge-se contra o uso da palavra tolerância para qualificar o projeto da Orquestra Divã: "Com frequência se qualifica o Divã como exemplo de tolerância, um termo que não me agrada, porque tolerar algo ou alguém implica algo negativo. A verdadeira aceitação significa reconhecer a diferença e a dignidade do outro". A cultura, diz, pode ser a força motriz da mudança da sociedade.

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