A arte de ser sutil e preciso na crítica social

Inútil, de Jia Zhang-ke, revela a contradição entre o glamour da moda e a vida de quem fabrica tecidos

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

16 de janeiro de 2009 | 00h00

Há um choque prévio de referências quando se fala de um filme chamado Inútil, dirigido por um chinês que atende pelo nome de Jia Zhang-ke. Foi com essa expectativa que ele o apresentou no Festival de Veneza do ano passado e ganhou o troféu principal da mostra Horizontes. Antes, Zhang-ke já havia vencido um Leão de Ouro no festival italiano com Em Busca da Vida, filme do qual, sem qualquer pudor ou medo de erro, se pode dizer que é uma obra-prima.Zhang-ke é um diretor crítico, expoente da nova geração de cineastas da China. Sua melhor vocação é mostrar, de modo muito original, os problemas causados pela modernização acelerada do país. Como a economia (anterior à crise, claro), turbinada ao extremo, cobra seu preço em termos de descaracterização de uma cultura milenar. Associá-lo a um filme sobre a moda parece algo estranho. Mais ainda quando esse filme se chama Inútil (Useless) e nos leva a pensar que Zhang-ke estaria falando sobre a suposta banalidade dessa atividade humana. Estaria tentando fazer um Prêt-à-Porter chinês, seguindo os passos de Robert Altman?Em aparência, não. Useless é apenas a grife de uma estilista chinesa, Ma Ke, de bastante sucesso no exterior. Zhang-ke, com sua câmera documental, procura registrar esse êxito nas passarelas de vários países europeus. Vai ao chamado mundo desenvolvido para conferir a aceitação de uma grife do seu próprio país. País, aliás, que se associa facilmente a várias qualidades do mundo industrial contemporâneo, tais como eficiência, barateamento de custos, etc., mas não à alta-costura. Grifes famosas remetem com mais facilidade a Londres, Milão e Paris do que a Pequim.Bem, tudo é de fato muito curioso. Mas não se deve esperar que Jia Zhang-ke tenha um olhar convencional sobre as coisas. Que se limite a filmar o sucesso de uma conterrânea em seara alheia, como se fosse um artista do ufanismo. Pelo contrário, o que se vê no filme nega a contemplação inocente do mundo da moda, e de qualquer mundo, na verdade. Assim, o diretor salta das passarelas charmosas, com a toda opulência reinante nesse ambiente, para locais onde as roupas são produzidas. É uma brutal contradição.Mas contradição cortada, por assim dizer, com mãos de fada. Passamos do ambiente da moda nas capitais europeias às fábricas em Cantão, onde os tecidos são produzidos, por uma transição suave, quase uma continuidade, e não uma aproximação crua entre os dois mundos incompatíveis. Zhang-ke, ele próprio um estilista das imagens, usa de recursos finos para introduzir sua crítica sutil. Não corta os planos a machadadas; vai aproximando aos poucos realidades tão distintas que chegam a ser opostas. É dessa maneira que instiga no espectador uma a princípio tênue sensação de estranhamento, que o conduz a refletir sobre o absurdo de tudo aquilo, sobre a desproporção entre experiências de vida tão radicalmente diferentes. A delicadeza não torna a crítica menos incisiva. Com sutileza, ele diz tudo o que precisa ser dito. ServiçoInútil (Wu Yong, China/2007, 81 min.) - Documentário. Direção de Jia Zhang-ke. 14 anos. Cotação: Bom

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