A arte de dimensionar a simplicidade

Nos seus romances, contos e memórias, o autor, que estará na Flip, consegue transformar o detalhe mais banal em algo raro

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

Os escritos de Tobias Wolff têm uma simplicidade quase aterrorizante. Autor de romances (O Despertar de Um Homem), contos (A Noite em Questão) e memórias (No Exército do Faraó), editados no Brasil pela Rocco e Ediouro, o americano que completa 64 anos dia 19 tem o raro dom de transformar seres ordinários em personagens fascinantes.Tal habilidade, aliás, será um dos temas de sua apresentação na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, no dia 4 de julho. Wolff vai dividir a mesa com a irlandesa Anne Enright. Ele já participou de outros debates ao lado de Anne por compartilharem afinidades literárias: ambos tratam das fraturas da sociedade em geral, e da família em particular. Será a primeira vez que o autor virá ao Brasil.Quando jovem, Wolff sofreu com um violento padrasto (lembrado como um "troglodita") e uma mãe hesitante, o que o obrigou a se refugir na mentira para sobreviver - inventava histórias e outros mundos nos quais a vida era suportável. Sofreu também com a separação do irmão Geoffrey, hoje também escritor e memorialista: crianças, ficaram sem se ver durante sete anos. Na escola, criou uma persona, Jack (homenagem a Jack London), e estudou em uma instituição por onde passaram nomes brilhantes como Edmund Wilson e o general Patton. Wolff constantemente descreve esse período como um idílio.Em 1967, já no exército, rumou para o Vietnã. A experiência foi descrita com extrema honestidade em No Exército do Faraó e O Despertar de Um Homem - relatos marcados mais por dilacerações pessoais que por atos de bravura. A aparente sinceridade, aliás, torneada pelos truques da ficção, caracteriza a obra de Tobias Wolff, um homem de conversa solta e bem-humorada, como demonstrou na seguinte entrevista ao Estado, por telefone, da Califórnia.A forma como suas histórias se encerram é particularmente interessante. Como é esse trabalho?É um processo demorado. Quando começo a escrever uma história, traço todas as possibilidades da narrativa, afunilando-as. É importante manter a mente aberta para qualquer caminho, mas cortes são decisivos e essenciais. Também proponho uma série de perguntas que, espero, sejam respondidas pela história. Isso faz com que o plano original seja constantemente alterado, que algumas ideias se imponham sem explicação. Mas é melhor assim: a experiência ensina que uma história escrita rigorosamente como planejada, do início ao fim, é invariavelmente uma péssima história. E, ao escrever suas memórias, você se sentiu limitado pelos fatos?Minha ficção é alimentada pelas minhas memórias, sem precisar, é evidente, de ser fiel aos fatos. E, no caso da não ficção, se essa fidelidade é essencial, também não pode representar uma exigência: acredito que o autor pode e deve divulgar apenas o que julga imprescindível para a narrativa. Escrevi dois livros de memórias e nunca fui confrontado por alguém em dúvida com um fato. Escritores devem dizer apenas a verdade necessária, a despeito do que isso pode lhes custar. Em alguns casos, como gosto de lembrar, tal verdade pode abalar apenas uma família ou ainda um país, como aconteceu com Aleksandr Soljenitsyn e seu Arquipélago Gulag.Quais desafios abraça na escrita?Não é fácil responder... Sabe, eu sempre desejei que minhas ideias brotassem com a mesma facilidade como acontecia com John Updike ou ainda acontece com Joyce Carol Oates, autores que mais parecem fazer a transcrição imediata do pensamento que propriamente utilizá-lo como inspiração para a escrita. Procuro não pensar nisso, pois transito em vários gêneros. Recentemente, acabei de escrever uma introdução para um livro que traz o relato de uma jornada pessoal. Ao mesmo tempo, me preocupo com o artigo para um jornal, além de alguns contos, outro romance. A escrita, portanto, é uma constante busca de desafios.Mas você acredita que os romancistas têm alguma obrigação moral com seus personagens ou mesmo com seus leitores?Não sei, realmente. Veja, uma amiga querida, que morreu no ano passado, era uma grande contista, mas tornou-se muito política no trabalho - usava sua ficção para passar mensagens políticas. Certa vez, eu a questionei sobre isso e ela respondeu que tudo que nós, autores, escrevemos tem um cunho político. Esse era o pensamento lógico de sua escrita. Repliquei que então poderíamos considerar The Turner Diaries como obra política, quando, na verdade, não passa de um livro fascista e incitador de terrorismo doméstico (escrito por William Luther Pierce, sob pseudônimo de Andrew MacDonald, em 1978, o livro trata da eliminação de judeus e não brancos, o que o associou a atos violentos como o atentado à bomba a Oklahoma, em 1995, praticado por Timothy McVeigh, que confessou inspiração na obra). Seria político, então? A dúvida do escritor é como dar senso à condição humana, à dificuldade em se navegar em um oceano de problemas. A jornada da vida implica levantar questões e o desafio está em descobrir as melhores, mesmo quando ainda obscuras. No meu caso, não escrevo ficção para passar lições a ninguém.Você escreveu os obituários para o jornal The Washington Post durante a mesma época em que Bob Woodward e Carl Bernstein desvendavam o escândalo Watergate, em 1972. Que importância isso teve em sua carreira?Eu gostaria que tivesse sido mais importante do que realmente foi. Havia dias em que eu tinha uma boa coluna, mas, em outros, não. O mais importante para mim era desvendar boas histórias nesses obituários - algumas até inspiraram minha ficção. Outra boa lição foi praticar diariamente a escrita, algo valioso para qualquer escritor. Cobri também assuntos policiais mas, apesar de me divertir muito e de ter bom convívio com os colegas, logo descobri que o jornalismo diário dificultava a intenção de me tornar escritor. Afinal, depois de um dia de trabalho, era melhor tomar alguns drinques em um bar com os amigos do que ir para casa e escrever (risos). Ao menos não enfrentei a decepção por que passam alguns jovens autores, certos de que a prática do ofício consiste em apenas contar histórias alegres. Tornei-me mais cético.No BrasilMeus Dias de Escritor (Romance, 2006, Ediouro)No Exército do Faraó (Memórias, 2002, Rocco)A Noite em Questão (Contos, 2000, Rocco)O Despertar de Um Homem (Romance, 1997, Rocco)

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