A arte de animar bonecos e público

Da simplicidade dos mamulengos à sofisticação tecnológica, mostra em BH ressaltou a diferença entre movimentar e dar vida

Beth Néspoli BELO HORIZONTE, O Estadao de S.Paulo

07 de junho de 2008 | 00h00

No palco, os movimentos de uma plataforma metálica ajudam a ampliar o contraste entre as dimensões de Gulliver e os habitantes de Liliput, no espetáculo de bonecos chileno criado por Jaime Lorca, um dos fundadores do famoso grupo La Troppa. Na montagem belga Bistouri um médico ''manipulado'' pelo ator Manu Fardeau realiza uma sofisticada cirurgia no lobo mau, com direito à microcâmera que viaja pela barriga do bicho. Tem a simplicidade dos mamulengos - bonecos de madeira e um pano preto encobrindo manipuladores - o espetáculo cearense O Caso da Cobra Pantera apresentado ao ar livre. O que essas três montagens aparentemente tão diferentes têm em comum?Em primeiro lugar as 3 estão entre as 20 participantes do 9º Festival Internacional de Teatro de Bonecos de Belo Horizonte, que teve início no dia 31 e termina amanhã. Realizado por gente que entende do riscado, os mineiros Adriana Focas e Lelo Silva, eles próprios fundadores do grupo de bonecos Catibrum, em nove dias de programação esse festival fez ver claramente a diferença entre manipular e dar vida. Sacudir um boneco emprestando-lhe voz e palavras é fácil, e o resultado pode ser engraçadinho, mediano ou até ruim. Animar é diferente de movimentar. A genuína arte de dar anima, alma, a bonecos - eis o que havia em comum entre os espetáculos conferidos pelo Estado no primeiro fim de semana do Fit Bonecos.Impossível dar consistência a um espetáculo sem possuí-la. Em conversa após apresentação, Lorca contou que a tradicional ilustração dessa história de Jonathan Swift - Gulliver deitado preso por cordas e estacas - intrigava-o. ''Eu, menino, pensava: se estivesse no lugar dele, me debateria até a libertação.'' Na sua recriação, Gulliver, por ele próprio interpretado com uma máscara que lhe aumenta o rosto, é tomado por um deus. Porém, em vez de interferir sobre o mundo, prefere continuar preso e usufruir as oferendas. ''Ser livre é estar à beira de um precipício, ter de tomar decisões; ser adulto, escolher rumos'', observa Lorca.Gulliver, como muitos seres humanos, não usa sua potência. Seu ''crescimento'' será o ponto-chave da narrativa. Um menino de Liliput, que ''adota'' Gulliver como pai, e a princesa Lili, ou seja, laços afetivos, serão os responsáveis por sua transformação. ''A mim interessa explorar a relação entre homens e bonecos'', diz Lorca. Pois há uma cena em que a princesa é flagrada nua por Gulliver. Só um boneco (Terestia Iacobelli é a responsável por lhe dar vida) poderia expressar de forma tão precisa, porque limpa de qualquer outra sensação, o pudor pelo corpo nu; por outro lado, só um homem olharia para essa nudez com tanta complexidade de sentimentos: desejo, malícia, culpa, atração e repulsão.Só aparentemente mais simples, O Caso da Cobra Pantera provocou nas crianças que assistiam ao espetáculo uma igual complexidade de sentimentos. Meninas buscavam o colo da mãe com carinha de choro, meninos tapavam os olhos com as mãos, mas deixavam uma fresta entre os dedos para não deixar de ver a malvada cobra que, com olhos perversos e boca gigante, engolia tímidos bichinhos e até gente. Até o momento em que um casal de irmãos - sempre às turras - conseguem derrotá-la com um plano inteligente e união de forças provocando na platéia uma catarse - o enfrentamento do medo por meio do simbólico - tão importante quanto divertida. Por trás dos bonecos - não moviam olhos nem mesmo a boca, mas ainda assim seria possível jurar que vimos suas expressões -, a atriz e pesquisadora Ângela Escudeiro (leia abaixo) e o mestre Augusto Bonequeiro, um pernambucano que transformou a arte do mamulengo no Ceará, como mostra o livro O Bonequeiro de Escada, dessa dedicada pesquisadora da popular arte do mamulengo.Uma passeata de bonecos gigantes abriu o evento. Na programação ainda, debates, lançamentos de livros e muitos bons espetáculos, como o do catarinense William Sieverdt, que mantém um centro de pesquisa de formas animadas na cidade de Rio do Sul (SC). Ele trouxe ao festival O Incrível Ladrão de Calcinhas, montagem que merece o incrível do título.A repórter viajou a convite da organização do evento

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.