A arte da escrita sem data de validade

Ele se intitula o historiador de pessoas que não têm história registrada em público. Aos 77 anos, o jornalista americano Gay Talese mantém intacta a convicção que norteia sua carreira, apontada como uma das principais inspiradoras do chamado jornalismo literário - aquele em que a profusão de detalhes trabalhada adequadamente permite que um texto de imprensa transcenda e se transforme em obra de arte. "Para que a procura pelos fatos tome a forma da narrativa da ficção, você tem de conhecer seus personagens muito bem. Tem que estabelecer com eles uma compatibilidade, uma compreensão não só do que eles dizem mas também do que estão pensando."Talese conversou com a repórter Lúcia Guimarães em sua casa, em Nova York, na quinta-feira. Com viagem marcada para o Brasil (participa da Festa Literária Internacional de Paraty, em julho), ele revela seu ceticismo em relação ao uso da tecnologia como eficiente ferramenta de trabalho para o jornalista. Também condena a proximidade da imprensa com o poder - o de qualquer governo e também o corporativo. Mas, a despeito de reportagens fraudulentas descobertas nos últimos anos, que mancharam especialmente a reputação do jornalismo americano, Talese mantém sua crença na profissão: "No prédio de qualquer redação de um jornal respeitável, a qualquer momento, há menos mentirosos por metro quadrado do que em qualquer outro prédio", garante.A íntegra da entrevista será publicada pelo caderno Cultura, que circula amanhã. Cenas da conversa foram gravadas em vídeo por Taís Moraes, que estarão disponíveis hoje no portal Estadão devidamente legendadas em português. Na conversa, Talese comenta ainda sobre seu livro Vida de Escritor (tradução de Donaldson M. Garschagen, 512 páginas, R$ 59), que a Companhia das Letras lança a partir de segunda-feira.Trata-se de uma autobiografia pouco convencional. Ao narrar sua iniciação no jornalismo (começou como repórter de esportes do jornal da faculdade, no Alabama), Talese discorre sobre o ofício da escrita, desde o paciente e trabalhoso processo de apuração até o penoso (para ele) estágio de redação do texto final. O perfeccionismo, aliás, tornou-se marca de sua carreira, especialmente durante os dez anos em que trabalhou no The New York Times, no qual era conhecido por entregar as matérias no minuto fatal do prazo e por reclamar das alterações e cortes feitos por redatores. Obsessão, no entanto, que permitiu a escrita de verdadeiras joias como a matéria Frank Sinatra Está Resfriado, publicada na edição de abril de 1966 da revista Esquire. Para traçar o perfil do famoso cantor e ator, ele descobriu que a falta de cooperação da pessoa a ser retratada não importa muito - e o texto tornou-se clássico por desvendar o personagem sob diversos ângulos, pois, na impossibilidade de entrevistar Sinatra, Talese ouviu dezenas de pessoas de alguma forma ligadas a ele que forneceram informações para um retrato sólido. Já para escrever sobre a construção da ponte Verrazano-Narrows, que liga os distritos de Brooklin e Staten Island, em Nova York, Talese acompanhou a rotina dos operários, visitando o canteiro de obras mesmo em seus dias de folga, o que permitiu desenvolver uma rara intimidade com os entrevistados. Depois de ter dois de seus livros mais bem-sucedidos - A Mulher do Próximo, sobre a revolução sexual dos anos 1970, e Honra Teu Pai, a respeito da família mafiosa Bonnano - reeditados recentemente nos Estados Unidos, Talese prepara-se para escrever agora sobre seu casamento com a agente literária Nan Talese, união que perdura há meio século. E o prazo de entrega logicamente não foi definido, pois o estilo preciosista do escritor continua afiado como nunca.

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