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A antropologia da face gloriosa de Yuri Firmeza

Artista expõe 'Nada É', que foi destaquena seleçãoda Semana dosRealizadores, no Rio

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2014 | 02h05

Tudo ocorreu muito rapidamente. Curadores da Bienal de São Paulo foram a Fortaleza encontrar-se com artistas locais. Viram material - fotos - de uma mostra que Yuri Firmeza havia feito em Nova York e o comissionaram para um trabalho na Bienal. Yuri conseguiu copatrocínio do Banco do Nordeste e com uma equipe foi para Alcântara, no Maranhão. Durante 15 dias acompanhou a Festa do Divino, depois, mais um mês de edição e mixagem de som. Toda essa história começou em abril e o resultado está na Bienal.

Aqui, não deixa de ser uma videoinstalação. Foi construído um simulacro de cinema, num espaço de 8 por 9 metros, com som 5.1, em que o público pode ver em looping, continuamente, Nada É. No Rio, integrando a seleção da Semana dos Realizadores, Nada É teve sessão especial no fim de semana. Na vertente da Mostra Aurora, em Tiradentes, a Semana, idealizada por Lis Kogan - e com curadoria de Daniel Queiroz e dela -, abre uma janela para o cinema autoral, de invenção, que tende a ser marginalizado pelo 'mercado'. Um dos diretores, apresentando seu filme, disse que tinha a sensação de estar num oásis, comparando o cinema brasileiro a um deserto. Na noite desse deserto, Nada É fulgurou como um cometa.

Talvez a experiência de ver o filme na imersão do cinema tenha ajudado no deslumbramento. Na Bienal, embora impecável como som e imagem, Nada É passa sem créditos - iniciais nem finais - e espectadores já disseram ao diretor que viram um pouco do filme, saíram para ver outros trabalhos do evento e voltaram para mais um pedaço. "Agindo assim, eles fazem outro filme que não o meu em seu imaginário", avalia Yuri Firmeza, e ele não se queixa. Acha o procedimento intrigante.

Nada É tira seu título do que disse ao diretor uma habitante de Alcântara. Na cidade maranhense, nada é - tudo foi ou será. No século 19, a elite local construiu palacetes à espera do imperador d. Pedro II, que prometeu, mas nunca foi à cidade. Beckett, Esperando Godot. Os palácios viraram ruínas, que Firmeza fotografou (e mostrou nos EUA). O passado, o que foi. O que será é o futuro e Alcântara abriga uma base de lançamento de satélites. Yuri Firmeza mistura tudo. As ruínas, os foguetes e a Festa do Divino, durante a qual é coroado o imperador-menino, evocando d. Pedro e sua corte. Como artista visual acurado, o diretor cria imagens belíssimas e trabalha o tempo (da ciência e da religião) como eternidade e transcendência. Alcântara abrigou quilombos. Possui muitos descendentes de quilombolas. Firmeza os filma - cantando, dançando e em estática solenidade, no culto e na corte simulada. Como Arthur Omar, ele propõe sua antropologia da face gloriosa. Se estreasse nos cinemas, Nada É, apesar dos reduzidos 32 min, seria um dos maiores filmes do ano.

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