A anti-Manaus de Milton Hatoum

Na coletânea A Cidade Ilhada, o escritor propõe uma invisível e progressiva demolição da imagem nacional da cidade

Vinicius Jatobá, O Estadao de S.Paulo

07 Março 2009 | 00h00

A voz de Milton Hatoum regressa: são os relatos de A Cidade Ilhada. E é uma voz diferenciada: marcada pelo tom maduro metalizado, de poucos adjetivos apesar do universo hipercromático sobre o qual se debruça, um estilo cuja qualidade essencial é a sobriedade com que regularmente escolhe pelo gesto miúdo, a conversa sugerida, o olhar esquivo. Da mesma forma que a vocação de Hatoum é, mesmo em seus romances, celebrar o tom menor da vida de província, sua meticulosa materialidade, seus ânimos e humores - e dessa forma seja apreciado como um autor macio, de abordagem autoral delicada -, com igual energia Hatoum propõe uma mais invisível e progressiva demolição: da imagem nacional de Manaus. O conjunto de relatos A Cidade Ilhada apenas atesta ainda mais essa diferença de sua voz: sua Manaus é uma anti-Manaus. A sobriedade faz com que o tom nunca seja agressivo, mas a corrosão existe - no coração da Amazônia, cercado pelo rumor incessante da floresta cerrada, Milton Hatoum é um escritor abertamente urbano. E talvez um dos melhores cultores nacionais da prosa urbana, porque seu uso do traço regional é apenas epidérmico, mais demarcador da ilha cultural a qual as personagens pertencem do que um esforço de buscar um temperamento geral e comunitário. E a floresta nunca é cúmplice: é mais fonte de constrangimento e mistério. Há uma profunda ignorância cultural de quem tenta encontrar em Hatoum - ou num escritor como Ronaldo Correia de Brito - traços do regionalismo do romance de 1930, porque a crítica desse projeto (mesmo quando realizado com voltagem poética, como em Rosa) - a ficção como laboratório sociológico ou etnografia ficcional - já foi realizada com excelência por João Ubaldo Ribeiro, Osman Lins e o esporão Francisco JC Dantas; essa geração não responde questões nacionais de identidade nem busca marcas essências de uma cultura caricata e que, de certa forma, o romance de 1930 ajudou a caricaturizar: essa geração está mais ocupada com a economia dos pequenos gestos, e a da idiossincrasia - catalogada nos localismos, nas comidas da região, na maneira de se vestir, etc. - que antes denunciava a "essência do temperamento", agora é apenas a epiderme do fenômeno social e não mais o próprio drama ou objetivo e resposta das macroquestões. Seguindo por esse caminho, o projeto de Hatoum é ainda mais corrosivo, porque é o autor urbano de uma cidade portuária cosmopolita cravada no coração da floresta que mais remete e irradia lugares-comuns de uma vida cotidiana marcada pelo caricato mais turisticamente selvagem: a bijuteria indígena, a onipresença da floresta, a vida lenta e esvaziada. Dessa forma, Manaus é uma cidade ilhada por um imaginário nacional que Hatoum apropria e desconstrói para simplesmente erradicá-lo sem clemência de seu mapa ficcional ou sensivelmente retrabalhá-lo em chave irônica, positiva. E cada um de seus relatos desautoriza (ou redimensiona) enlevos desse imaginário. Há duas experiências possíveis para um livro de relatos como A Cidade Ilhada. A primeira delas é de rememoração do espaço ficcional: e assim o leitor apreende as estórias como peças lacunares, pequenos tramos de prosa que enriquecem a geografia sentimental já enraizada pela memória das leituras de romances como Dois Irmãos e Cinzas do Norte. O prazer dessa leitura é mais intenso, e o retorno de personagens como Ranulfo gera genuíno prazer. A outra experiência talvez seja mais problemática porque, ao contrário do que possa parecer, não é por ser breve que o relato carece de um tempo dramático plenamente construído. Há contos no volume que possuem esse tempo dramático completo, e dois deles são contagiantes - Dois Poetas da Província e Dançarinos na Última Noite. No entanto, há certos relatos - Uma Carta de Bancroft, por exemplo - que carecem desse tempo ficcional, e não por lhe faltarem páginas a mais, a questão não é essa. Faltam-lhes o salto do tempo do comentário social - a crônica e a peça memorialística - para o construído tempo autocontido do conto. E isso não por inabilidade autoral, mas sim pela confiança fraterna que alimenta na inteligência do leitor - algo que o diferencia radicalmente de seus pares. Milton Hatoum crê que esse anônimo compartirá com ele a mesma curiosidade que o moveu à escrita da peça, que tenha uma intimidade ficcional por já ter se debruçado sobre seu universo antes. Essa confiança, no entanto, pode estorvar pontualmente o leitor virgem, que nunca o leu. Um exemplo claro disso é o conto A Natureza Ri da Cultura: os leitores de Relato de Um Certo Oriente terão uma apreciação marcada por essa intimidade - está de volta a adorável matriarca Emilie - e a experiência se torna mais abrangente e completa, porque engloba a memória de outra leitura pretérita e contagia a leitura com intimidade e cumplicidade. No entanto, aqueles que estão lendo-o pela primeira vez, podem ter uma sensação de incompletude e apreenderem o relato como uma peça derivativa da vivência do próprio autor, e não como o texto ficcional que é (ainda que a estória seja narrada por uma mulher). Essa pequena confusão - a forma como a imagem do autor se confunde com alguns narradores -, no entanto, não tira o brilho geral da coletânea regular em sua excelência. São como pequenos trançados algo rotos num bordado elegante que, no fundo, convidam a um passeio mais demorado pelo universo de outros livros do autor. E aproximam ainda mais Hatoum da tradição latino-americana de autores - Onetti, Borges, Piglia, etc. -, cujos livros nascem bipartidos: dividindo-se entre a historicidade do mundo que viveram e a própria historicidade ficcional - emocionalmente construída - de seu universo literário. Vinicius Jatobá é crítico literário Outras Obras Do Autor RELATO DE UM CERTO ORIENTE (lançado em 18/4/1989): Após longa ausência, mulher regressa a Manaus, cidade de sua infância. Deseja encontrar Emilie, matriarca de uma família libanesa há muito radicada ali. Situado entre o Oriente e o Amazonas, o relato busca um mundo perdido, que se reconstrói nas falas alternadas das personagens, longínquos ecos da tradição oral dos narradores orientais. DOIS IRMÃOS (lançado em 2/6/2000): A relação de dois irmãos gêmeos (Yaqub e Omar) com a mãe, o pai e a irmã. Com eles, moram a empregada Domingas e seu filho, que narra, 30 anos depois, os dramas que testemunhou calado. Buscando a identidade de seu pai entre os homens da casa, ele tenta reconstruir os cacos do passado, como testemunha, ou como quem ouviu e guardou, mudo, histórias dos outros. CINZAS DO NORTE (lançado em 16/8/2005): Drama ambientado nos anos 1960. Dois amigos de infância seguem diferentes caminhos, marcados pela ditadura militar. Olavo, conformado, permanece em Manaus, tornando-se advogado de porta de cadeia. Raimundo, rebelde, desafia a província e atravessa a fronteira para seguir sua vocação de artista. ÓRFÃOS DO ELDORADO (lançado em 4/3/2008): A trajetória de Arminto Cordovil que, no início do século 20, dividi-se entre o amor por uma moça misteriosa, Dinaura, e as pretensões do pai, Amando, armador enriquecido com o ciclo da borracha. Os Cordovil representam uma rica família de Vila Bela, cidade inspirada em Parintins, onde Amando é idolatrado pelas atitudes beneméritas - a face do pai conhecida por Arminto, no entanto, é a de um homem frio, embrutecido, ativo participante de maracutaias e extorsões para garantir sua fortuna. A história evoca ainda um mito amazônico, o da Cidade Encantada. Ubiratan Brasil

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