A alquimia eloqüente de Anselm Kiefer

Na ala Sully do mesmo museu de Paris, agora brilha o grande pintor alemão

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2008 | 00h00

O Louvre não vive apenas de Antiguidades ou de Da Vincis. Em sua galeria Apolo, encomendou obras de artistas vivos como Delacroix no século 19 e Picasso no século 20. Agora expõe na ala Sully um trabalho encomendado em 2007 ao grande pintor alemão Anselm Kiefer, de 63 anos. É certo que Kiefer sempre foi um artista preocupado com o passado - com questões como o peso da história e a mitologia (por sinal, Gilgamesh lhe inspirou uma série de trabalhos) - e que isso aparece de novo com força, mas também é certo que ele é um dos maiores artistas da atualidade.A pintura, acompanhada de duas esculturas, se chama Athanor, nome do forno onde, segundo as lendas, os alquimistas preparavam a pedra filosofal, com a qual transformavam os elementos. A tela principal traz um homem nu deitado, como que caído ou sonhando, sobre um chão de argila craquelado e sob um céu estrelado que ocupa mais de 80% da superfície. Incrustações de chumbo, prata e ouro pontuam o cosmos, relembrando duas séries recentes de Kiefer, Essa Obscura Claridade Que Cai das Estrelas (1996) e A Queda das Estrelas (1998), ambas relacionadas com o anti-humanismo nazista. O trabalho de Kiefer sempre foi interessado em observar sem romance as ruínas do passado, e até sobre a cidade de São Paulo pintou algumas de suas telas cinzentas e fronteiriças.É como se toda a arte de Kiefer meditasse sobre a idéia de Adorno de que nenhuma poesia seria possível depois de Auschwitz. E discordasse dela já por seu esforço de enfrentar essa questão com tanta densidade e originalidade. Não que Kiefer veja na queda a possibilidade de redenção, como supõem alguns críticos. O que ele vê é essa resistência do homem a si mesmo, seu poder transformador mesmo depois de tantos dramas de chumbo. As mesmas estrelas que caem parecem se infiltrar no corpo do homem e lembrá-lo de sua capacidade renovadora. A ambigüidade não deixa a tela, tão triste ao primeiro como ao último olhar. O mundo é um paradoxo; ao menos, se move.

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