A alma russa de Akhmátova

Biografia da mais popular poeta russa do século 20 revela as razões de Anna Akhmátova ter permanecido em seu país, mesmo aconselhada pelos amigos a buscar asilo no Ocidente

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

10 de agosto de 2008 | 00h00

Num mundo transnacional, a atitude da poeta russa Anna Akhmátova (1889-1966) de não abrir mão de sua cidadania, resistindo ao canto da sereia estrangeira, talvez seja considerada pura teimosia, em especial por ter colocado a vida em risco, ao decidir ficar em seu país durante o período mais sangrento da história russa, o stalinista. No entanto, passados mais de 40 anos de sua morte, esse mundo globalizado começa a entender a insistência de Anna Akhmátova e a celebrar sua poesia como a mais importante manifestação literária de uma mulher russa no século 20. No Brasil, graças ao esforços de tradução de um de seus mais sérios críticos, Lauro Machado Coelho, essa obra já é conhecida há algum tempo. Agora, ela ganha novo reforço com a publicação de Anna, A Voz da Rússia - Vida e Obra de Anna Akhmátova, biografia de peso escrita pelo mesmo crítico, que será lançada nesta terça, às 19 h, no Teatro São Pedro, com um recital da soprano Adélia Issa, acompanhada pelo pianista Ricardo Ballestero, e declamação de poemas da Anna Akhmátova pela atriz Beatriz Segall.Conciso como o de sua poeta, o estilo de Lauro Machado Coelho bem poderia ser adotado como modelo de futuras biografias. A herança deixada por Anna Akhmátova, afinal, está na sua: clareza, perfeição formal e simplicidade, aliados a uma salutar alergia a metáforas e um léxico para lá de econômico. A literatura da poeta russa nasceu complexa como a novela russa do século 19 e cresceu simples como o cotidiano das vítimas do terror stalinista, de quem Anna Akhmátova foi porta-voz. Marcada pelos princípios do movimento acmeísta, de reação às hipérboles simbolistas, ela fez da linguagem direta uma profissão de fé - e cabe aí a observação de que o acmeísmo (do grego acme, a essência das coisas) manteve cautelosa distância do formalismo excessivo dos futuristas de Moscou - Maiakóvski incluído - e da linguagem hermética dos simbolistas.É tão autenticamente popular a poesia de Anna Akhmátova que o museu russo que leva o seu nome só perde em número de visitantes para o de outro poeta, Pushkin, sobre a obra de quem se debruçou como crítica literária, entre 1925 e 1940, período em que teve sua obra poética banida pelo regime stalinista. Stalin confinou não apenas o filho da poeta, Liev Nikoláievitch Gumilóv, num campo de concentração, como ordenou a morte de um de seus maridos, mandando ainda amigos de Anna Akhmátova para os confins da então União Soviética. Ela nunca deixou a Rússia, apesar de seu filho ter sido preso várias vezes, até depois da morte de Stalin. O mesmo destino teve um de seus maridos, o crítico de arte Nikolai Púnin, preso durante o terror stalinista dos anos 1930 e 1940.Mesmo antes dessas prisões, amigos como Borís Anrep já haviam aconselhado a poeta a exilar-se no Ocidente. Anrep recebeu como resposta um poema irado em que Akhmátova o critica por abjurar a cultura e a natureza russas, chamando-o de "apóstata". "Como Shostakovich, ela se sentia sem forças se não estivesse grudada à terra russa", diz seu biógrafo, esclarecendo que o patriotismo da poeta sempre esteve acima de qualquer suspeita. Fez, sim, concessões para permanecer na terra natal, como a de escrever poemas patéticos em louvor de Stalin, mas tratava-se, afinal, de uma questão de vida ou morte. "Ela confidencia ao filho, em seu Réquiem, que se atirou aos pés do carrasco na inútil tentativa de obter a sua libertação", lembra o biógrafo, referindo-se ao poema épico pelo qual Anna Akhmátova é lembrada como a "voz da Rússia", por traduzir a tragédia de outras milhares de mães que perderam seus filhos sob o regime de Stalin.Mesmo sacrificando sua poesia para salvar Liev, o filho nunca perdoou a mãe por ter sido criado pela avó paterna, que não escondia sua antipatia pela nora poeta e, além do mais, envolvida com boêmios - ela teria sido amante de Modigliani numa curta temporada parisiense e foi retratada nua pelo pintor. "Ela agiu como qualquer mulher russa agiria naquele tempo, entregando o filho aos cuidados da governante ou sogra", diz seu biógrafo, explicando que Liev, preso num campo de concentração e ressentido por receber poucas cartas da mãe, não entendia que Anna - por paradoxal que pareça - não gostava de escrever. "Ela era lacônica e às vezes mandava cartões-postais para ele, que considerava ofensivo recebê-los no lugar de cartas", conta Machado Coelho. O certo é que entre os dois existia, inclusive, um fosso ideológico. Liev mal conseguia disfarçar seu violento anti-semitismo, segundo o biógrafo de Akhmátova.Já Akhmátova tinha grande amigos judeus, como Isaiah Berlin, o filósofo e historiador liberal de origem russa com que dividia o credo no pluralismo ético, uma alternativa ao relativismo moral. Ela foi castigada pelas autoridades por ter recebido, sem autorização, a visita de Berlin em sua casa, no outono de 1945. Esse encontro com Berlin, visto por Stalin como "espião estrangeiro", e a resolução de fechar o cerco contra escritores que mantinham contato com estrangeiros, em agosto de 1946, marcou o início do que viria a ser conhecida como Guerra Fria. O "novo homem soviético" de Stalin deveria ser, antes de tudo, um imbecil fechado para o mundo. Mesmo com a popularidade em alta, graças ao seu empenho patriótico durante o cerco de Leningrado, seus poemas tiveram a publicação proibida por decreto. Foi por essa época que Akhmátiova foi definida como "metade freira, metade vagabunda" pelo secretário do Comitê Central e ideólogo do stalinismo, Andrêi Jdánov.Esse é um episódio um tanto obscuro, esclarecido na biografia. Jdánov teria torcido uma frase elogiosa de um crítico a respeito do livro Rosário, repleto de poemas religiosos. "A sua é uma religiosidade tipicamente ortodoxa", define Machado Coelho, esclarecendo que Akhmátova via a religião "como forma de apoio, de consolo, para o povo, um antídoto contra a opressão". Exatamente como nos poemas de Akmátova presentes no CD que acompanha o livro, declamados pela própria autora e, em português, por Beatriz Segall. O luxuoso volume traz ainda uma composição inédita de Gilberto Mendes sobre um poema de Akhmátova, interpretada por Adélia Issa.

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