A alma argentina em ritmo de tango

Café dos Maestros, de Miguel Kohan, acompanha lendas do gênero durante preparação para concerto de gala no Teatro Colón

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

26 de dezembro de 2008 | 00h00

Psicanalista formado em cinema na UCLA, a famosa escola de cinema de Los Angeles, o argentino Miguel Kohan festeja seus 51 anos na semana que vem. "51, uma boa idéia." Miguel sabe do que está falando. Afinal, nas suas andanças pelo mundo, ele se estabeleceu por um tempo no Brasil, mais exatamente em Salvador, onde fez documentários para a TV Cultura.   Veja o trailer do filme no siteUm de seus trabalhos, Salinas Grandes, de 2004, fez o ?recorrido? dos maiores festivais internacionais. O primeiro longa do diretor, também documentário, estreou ontem nos cinemas brasileiros. Café dos Maestros é uma jóia cinematográfica e musical. Miguel Kohan concretizou, mais de 20 anos depois - leia a entrevista -, o sonho de Gustavo Santaolalla.Nos anos 80, o compositor duplamente vencedor do Oscar - em 2005 e 2006, por O Segredo de Brokeback Mountain e Babel - quis mapear as fontes da produção musical argentina, mas faltara dinheiro justamente para que ele pudesse documentar a música da capital, da província de Buenos Aires. Ficara faltando o tango, e é dele agora que trata Café dos Maestros. Quem foi a Buenos Aires, com certeza já visitou uma daquelas tanguerias, casas de tango como a tradicional Viejo Almacén, que servem a cena (jantar) acompanhada de espetáculos de tangos para turistas. Não pense por isso que os artistas não são maravilhosos. Só que os de Café dos Maestros são ainda melhores.Entre ensaios e performances ao vivo, o filme monta um mosaico da cultura do tango. Grandes artistas como Leopoldo Federico, Lágrima Rios, Aníbal Rios, José Libertella e Luis Stazo ensaiam para uma apresentação ao vivo de gala no Teatro Colón, na capital argentina. Eles possuem diferentes estilos, diferentes origens. Conversam, contam histórias e Miguel Kohan vai montando o que é muito mais do que um documento sobre esse ritmo que é tão importante para os argentinos quanto o samba para os brasileiros. "A novidade que o filme traz é a reunião desses artistas que nunca haviam tocado juntos antes", explica o diretor. "Todos eles estavam atuantes (alguns, como a uruguaia Lágrima, morreram antes da es tréia) e o próprio tango estava vivo. O que não havia eram gravações recentes. Não favorecemos nenhum estilo de tango, pois não há um só tango. Existem vários, desde o mais campestre até o mais orquestrado. Cada estilo é como se fosse um país. Na Argentina, a multiplicidade do tango é defendida com a mesma paixão com que se torce para os times de futebol", diz o diretor.Ele não se incomoda quando, a título de simplificação, ouve os críticos comparararem seu filme a Buena Vista Social Club, de Wim Wenders. Café dos Maestros seria o Buena Vista Social Club do Tango. "Não é verdade, até porque as culturas musicais e as histórias dos dois países, Cuba e Argentina, são muito diversas. Mas eu adoro Buena Vista e sei que muita gente também gosta. Se, por aproximação, isso fizer com que mais público se sinta atraído por Café dos Maestros, tanto melhor. Só não gostaria que as pessoas começassem a pensar que vão ver exatamente a mesma coisa, pois não é verdade." Kohan explica que a logística do filme foi complicada, pois, além da idade dos músicos, havia outro fator complicador, que era a movimentada agenda de quase todos. "Por um lado, foi bom, pois não tínhamos tempo de preparar nada. Quando conseguíamos reunir as pessoas, tê-las todas juntas já era uma satisfação tão grande que, aí sim, podia-se planejar o que íamos fazer com certeza na hora."Miguel Kohan explica que alguns dos artistas nem tinham muita consciência de estar sendo filmados. "Em vários momentos, eu próprio fiz a câmera de Café dos Maestros. Acho natural que um diretor de documentários faça também a câmera, principalmente de um documentário musical, em que é preciso registrar linguagens tão diferentes. Usava um equipamento pequeno, bem móvel. Muitos dos maestros pensavam que estavam sendo fotografados, quando na verdade já estávamos filmando. Na maior parte do tempo, tenho de admitir que fui sendo contagiado por eles, pela música e, cada vez mais, queria eu mesmo filmar."Essa multiplicidade de linguagens era essencial desde o início, determinou o próprio conceito do projeto de Santaolalla. "O filme vem na esteira da pesquisa, de um livro de fotos, um disco e um show. Inclusive, depois da estréia, fizemos outro show em Buenos Aires, que teve ainda mais público", ele conta.Walter Salles associou-se ao projeto e a Videofilmes, empresa da família Salles, além de co-produtora, é que distribui o filme no Brasil. "Walter é amigo de Gustavo (Santaolalla) e foi o Gustavo quem o arrebanhou para o Café dos Maestros. Tenho grande carinho por Walter, que, além de tudo, é um grande conhecedor de cinema argentino." Kohan, que prepara sua primeira ficção, elogia a força e vitalidade atuais do cinema da Argentina. "Temos talentos muito diversos entre si, como Pablo Trapero e Lucrecia Martel, que trazem visibilidade internacional para o nosso cinema. No fundo, é um pouco como a diversidade do tango. Nós, argentinos, somos passionais, mas se há uma coisa de que não gostamos é do anonimato. Gostamos muito de externar nossas paixões, seja na música, no futebol, no cinema ou na vida. Nem as ditaduras conseguiram nos anular." O repórter, fã de tango, lembra Fernando Solanas, Tangos, o Exílio de Gardel - "hermoso" -, e principalmente Astor Piazzolla, o grande revolucionário do ritmo, cuja Reunión Cumbre com Gerry Mulligan é um dos discos mais belos do mundo. "Por Diós, si", exclama Kohan. Años de Soledad e Adiós, Nonino são inesquecíveis para quem os ouve. E essa possibilidade de diálogo entre o tango e o jazz leva a uma reflexão final de Kohan. "A história do tango está muito ligada ao processo de imigração na Argentina. O tango nasceu na zona portuária de Buenos Aires. Foi por meio dele que muitos imigrantes adquiriram uma identidade. E o tango é sensual. Havia tanta coisa a trabalhar num filme como esse. Espero que os brasileiros gostem. Vai ser uma maneira de nos conhecerem melhor." ServiçoCafé dos Maestros (Argentina/2008, 90 min.) Documentário. Dir. Miguel Kohan. 12 anos. Cotação: Bom

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