A alegre decomposição matrimonial

Vida Conjugal, do mexicano Sergio Pitol, percebe as relações amorosas - e sociais - como farsas pontuadas pela tragédia

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

13 de abril de 2009 | 00h00

Jacqueline Cascorro estava para completar 30 anos quando se percebeu num caminho sem volta. A certeza veio numa festa, ao quebrar com as mãos uma pata de caranguejo e ouvir uma garrafa de champanhe sendo aberta. Era 23 de abril de 1960. Ela e seu marido, Nicolás Lobato, grande empresário do setor hoteleiro, comemoravam 7 anos de casados e a entrada definitiva na alta sociedade. Mas ela não estava feliz. O seu casamento era um completo fracasso."Tudo aquilo que se pretende sagrado, solene e autocomplacente se transforma em vulgaridade e escárnio", diz Sergio Pitol, autor de Vida Conjugal (Companhia das Letras, 112 págs., R$ 32). Com tradução de Bernardo Ajzenberg, a obra chega às livrarias amanhã.No romance do escritor mexicano, as relações amorosas são entendidas como farsa e "a tragédia se converte em bufonaria". Ao se relacionarem, homem e mulher vão a um baile em que se apresentam sob máscaras. Viver em sociedade, Pitol dá a entender, é percorrer um caminho de paisagens cômicas que, aos poucos, recheiam um mistério. Não passa de comédia de baixo nível, à qual não faltam os lances trágicos.Vida Conjugal (1991) é a última parte de uma trilogia - Tríptico de Carnaval -, completada por O Desfile do Amor (1984) e Domar a La Divina Garza (1989). É o romance menos grotesco e obsceno, a comicidade está mais nítida, segundo Pitol. "Ele se inicia com uma linguagem recatada e prudente para descrever 40 anos de alegre decomposição matrimonial."Durante quatro décadas, Jacqueline e Nicolás ambicionam livrar-se de um cotidiano medíocre na Cidade do México. Ela aposta na cultura, frequentando reuniões eruditas na casa de Márgara Armengol. Ele topa tudo, até vender a alma, para ser um grande empresário. Embaladas pelas infidelidades constantes, suas existências se estilhaçam. Humilhada e obcecada, Jacqueline pede a cada novo amante que mate o marido. Na hora agá, de modo surpreendente o plano fura. É desesperador notar que, quanto maior é o repúdio ao fracasso, mais inevitável se faz o mergulho na mediocridade.Um dos grandes prosadores mexicanos contemporâneos, Sergio Pitol (1933) é pouco conhecido no Brasil. Começou a carreira como contista e ensaísta, antes de fazer romances. "O romance tem mais possibilidades de salvação, já o conto morre se o escritor se perde", diz. Dividiu o ofício de ficcionista com o de diplomata e tradutor. Ganhou os prêmios Juan Rulfo (1999) e Cervantes (2005). Foi elogiado por Enrique Vila-Matas, Antonio Tabucchi e Roberto Bolaño. Atualmente não escreve por estar doente.Na entrevista ao Estado, Pitol fez questão de citar os escritores brasileiros. É apreciador de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, João Guimarães Rosa, Rubem Fonseca e Nélida Piñon.Machado de Assis o fascina por exibir na ficção artifícios engenhosos que desmascararam a farsa social. Identifica-se com elementos da literatura machadiana - sendo um deles a revelação de verdades ocultas (e inaceitáveis). "A literatura tem o poder de abrir mundos fechados", diz. Os romances de Pitol, a provar Vida Conjugal, mostram que o sorriso pode esconder mas não impedir o choro interior de um indivíduo.

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