60 anos de música e as canções que sempre quis

Depois da parceria com Bethânia, a cantora cubana Omara Portuondo volta ao País para lançar o CD Gracias, que conta com participação de Chico Buarque

Roberta Pennafort, RIO, O Estadao de S.Paulo

02 de setembro de 2009 | 00h00

Faixa a faixa, Gracias, o novo disco de Omara Portuondo, traz canções que ela sempre quis gravar, de O Que Será, de Chico Buarque, a Ámame Como Soy, do amigo Pablo Milanés. O encarte é ilustrado com fotos da cantora cubana hoje, aos 78 anos, e registros da infância, dos anos gloriosos como artista, mãe, avó. São seis décadas ao microfone, e Omara quer, mais do que festejar, agradecer. "O meu trabalho eu nunca poderia fazer sozinha". Ouça trecho de O Que Será A faixa-título, que resume este espírito, foi encomendada ao compositor uruguaio Jorge Drexler, que canta com ela "Gracias, gracias, gracias/ Quiero agradecer, a quien corresponda". Chico também gravou com Omara sua música, metade em português, metade em espanhol. Assim como Milanés. São duas as músicas do compositor cubano - Tu Mi Desengaño, tão romântica quanto Ámame Como Soy, mas sem o contagiante ritmo caribenho.Omara veio ao Rio para o lançamento e integrou, com cantores brasileiros e africanos, o show de encerramento do Back2Black, festival que celebrou o continente africano no último fim de semana. Encantou o público, de maioria jovem, com o vozeirão e o vigor - mantidos, explica, com boas noites de sono e nada de festas, bebida e cigarro (ela viaja sempre com um médico, mas não tem precisado de seus serviços, não.) Seu único excesso é o pendor por doces. "La gran cantante cubana"recebeu o Estado em seu hotel na segunda-feira, ao lado do filho, Ariel Jiménez, seu parceiro de trabalho. Ele é autor da faixa Nuestro Gran Amor. Ariel também é responsável, indiretamente, por um momento ?bonitinho? do CD (o 24º de Omara, gravado em Havana e que sai no Brasil pela Biscoito Fino): ela canta a faixa Chachita com a neta, filha de Ariel. Rossio, de 9 anos, veio ao Rio por estar de férias na ecola. No colo da avó, tímida, a menina diz que não fala português direito - "só um pouquinho". A avó, que tem frequentado o país desde os shows do Buena Viesta Social Club, no início da década, e retornou no ano passado, para participar do disco e dos shows com Maria Bethânia, gosta de aprender palavras que diferem nas duas línguas.Ela achou importante incluir o Brasil nessas comemorações dos 60 anos - a presença não é só através de Chico; começa nos produtores, Swani Jr (que toca violão no disco) e Alê Siqueira (que fez os arranjos com Swani e os outros músicos que participam do CD, como o contrabaixista Avishai Cohen e o pianista Roberto Fonseca). "Era importante ter este sotaque brasileiro", diz Omara, que, entre setembro e outubro, tem agenda de shows na Colômbia, no Chile e no México. A voz se prova ainda poderosa em canções como Vuela Pena (Amaury Pérez), que ela já havia registrado 35 anos atrás, Rabo de Nube (Silvio Rodríguez Domínguez), sucesso antigo gravado por outros artistas, e na tristíssima Adiós Felicidad (Ela O?Farrill).Yo Vi (Yo Vi/ Tantas noches tantos días/ Tantasvidas tán vacias), versão de J?Ai Vu feita por Swami Jr para a música de Henri Salvador e Modo Michel, abre o CD, e tem o mesmo clima retrospectivo, mas não melancólico, de Lo Que Me Queda Por Vivir (Alberto Vera Morua), em que Omara canta que o que lhe resta viver será com sorrisos. A canção de ninar Drume Negrita (Ernesto Grenet), que ela entoou muitas noites para o filho e a neta, aparece em versão com cheiro de Caribe - desta faixa, participa o músico camaronês Richard Bona, num bonito vocal. São 60 anos de trabalho, e Omara quer mais - "Ya se acabó?", ela perguntou ao fim da gravação do CD, e assim ficou registrado. "Eu agradeço por poder mostrar a cultura do meu país. Cada êxito que eu tive, como solista, viajando por vários países, com o Buena Vista Social Club, ganhando prêmios, festivais, eu lembrava da minha mãe, que um dia me disse: ?Você vai ser uma grande cantora e representar Cuba em todas as partes do mundo?. Como ela poderia saber, se morreu em 1951 e não viu nada disso?"

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