24 City faz retrato com fidelidade da China em transe

Jia Zhang-ke mostra um país que celebra tanto a família quanto o individualismo

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

22 de outubro de 2008 | 00h00

Raymond Depardon entende o documentário como teatro - da família, das instituições - e arma seu jogo de cena retomando os perfis de camponeses que traçou em filmes anteriores. O resultado, Vida Moderna, é um dos grandes filmes da 32ª Mostra. O chinês Jia Zhang-ke vai ainda mais longe do que Depardon. Se em Still Life e Dong ele tratou, como ficção e documentário, o mesmo tema - os efeitos da construção da represa de Três Gargantas na vida das pessoas -, agora ele mistura as duas coisas e faz, com 24 City, um forte candidato ao prêmio da crítica da Mostra. Se ganhar, Jia repete o prêmio que ganhou por The World.Em Cannes, em maio, o cineasta exibiu 24 City em sessão emocionante. Depois, em conversa com o repórter do Estado, lembrou-se da homenagem da Mostra de 2007 e disse que a situação na China, que se preparava para a Olimpíada, estava ainda pior do que a retratada em seus filmes anteriores. 24 City mostra a destruição de um antigo projeto industrial do comunismo que será transformado em condomínio de luxo para abrigar as necessidades da nova elite dirigente do país. Não é só um prédio que é destruído. É toda uma concepção de vida. Jia parte em busca dos velhos filmes militantes produzidos sob Mao. A história da estrela de um desses filmes é reconstituída como ficção e interpretada por Joan Chen, a última imperatriz da China no filme de Bertolucci. A China se transforma no cinema de Jia Zhang-ke, mas ele descobre que a família chinesa tradicional não foi destruída nem pelo projeto comunitário de Mao nem pelo individualismo que hoje se celebra com o elogio à competitividade, como dogma da economia de mercado. O indivíduo é sempre massacrado, em nome de diferentes sistemas, até opostos. 24 City mostra mais ou menos a construção da utopia de The World. Já sabemos o que houve depois. Descobrimos agora o antes e o durante. Jia, tão jovem e tão sábio, confirma-se como o autor que melhor retrata a China em transe. ServiçoUnib. Arteplex 1 - Hoje, 17h50Unib. Arteplex 2 - 6.ª, 22h10iG Cine - Sáb., 20 hCinesesc - 3.ª, 17h30Reserva Cult. 1 - 4.ª (29), 17h10

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